Avaliação Interna de Riscos LD/FT

A mudança de perspectiva da abordagem baseada em regras para a abordagem baseada em riscos em matéria de PLD/FT coloca a Avaliação Interna de Riscos (AIR) das organizações em evidência.

Nessa nova abordagem, os controles e mecanismos adotados pelas organizações deverão ser pautados nos riscos concretos identificados e terão por objetivo prevenir e mitigar esses riscos, o que faz com que a avaliação se torne o coração dos programas de PLD/FT.

A partir de uma boa AIR, os parâmetros de implementação de um bom programa estarão dados, bem como os parâmetros para uma ponderação objetiva a ser realizada a título de Avaliação de Efetividade.

 

Mas em que consiste uma boa AIR?

Quando falamos em risco, é lugar comum descrever essa categoria como sendo composta de dois fatores relacionados: a probabilidade e o impacto. Esses dois fatores dizem respeito a um evento cujas chances de ocorrência e danosidade à organização são objetos de mensuração. Medir o risco, portanto, é medir a probabilidade de ocorrência e o potencial de dano de determinado evento.

Acontece que os riscos podem ser identificados, mensurados e avaliados e essa operações tem metodologias próprias e resultados distintos.

A identificação de um risco geralmente diz respeito a percepção de uma possibilidade que se torna concreta. Por exemplo, em matéria de LD/FT, uma determinada pessoa obrigada não irá identificar riscos de lavagem atrelados à atividade imobiliária se ela não atua nesse setor. No entanto, ao adquirir determinada participação societária em uma empresa que atua nesse setor, essa possibilidade passa a existir, de modo que o evento “lavagem de dinheiro por meio de transação imobiliária” se torna possível, tornando esse risco identificável.

 

Vamos continuar com nosso exemplo

Se a nossa empresa fictícia investe em uma companhia que loca imóveis próprios, o risco de lavagem existe, mas a probabilidade identificada é menor que se a empresa investida atuasse no mercado de fundos imobiliários, incorporação ou loteamento. Essa avaliação da probabilidade diz respeito às facilidades de se utilizar determinado instrumento contratual (a locação ou a aquisição de cotas ou a compra e venda de imóvel) com o intuito de lavar dinheiro.

Uma menor possibilidade de ocorrência do evento danoso não diminui o impacto que esse evento traria para a instituição, mas certamente diminui o risco e o torna mais fácil de ser controlado, diminuindo a exigência sobre os controles – aqui, já estamos falando de mensuração de riscos.

As metodologias de identificação e mensuração de riscos sempre dependem, em algum grau, de critérios subjetivos, geralmente atrelados aos conhecimentos prévios de quem realiza essa análise. Esse conhecimento diz respeito não apenas ao aparato legal e regulatório, mas também de casos concretos, de recomendações de órgãos nacionais e internacionais, da jurisprudência, da imprensa, além, claro, de um bom conhecimento do próprio negócio, das estruturas contratuais, dos ativos reais e societários, e assim por diante

Para evitar que a análise de identificação e mensuração dos riscos se torne um evento muito subjetivo, porém, as pessoas obrigadas podem recorrer a soluções da AML Risco Reputacional.

Ferramenta para Avaliação Interna de Riscos

Os elementos objetivos na análise dos riscos em matéria de LD/FT dizem respeito ao fato de que, de forma global, há uma metodologia bastante consolidada com relação aos passos que devem ser seguidos na identificação e na mensuração desses riscos a partir da revisão de determinados fatores que geram o risco de lavagem.

Por isso a metodologia de avaliação de riscos LD/FT é estruturada a partir da avaliação do estado real dos grupos que são considerados não riscos em si, mas fatores de risco ou causadores de risco, que são: os clientes, os parceiros, os funcionários, os produtos e serviços e os canais de venda/distribuição.

Podemos falar que a avaliação de riscos é o processo total de análise desses fatores e que permite mapear o risco a partir de tomadas de posicionamento sobre esses fatores.

Ou seja, a regulamentação já lista quais são os principias elementos que precisam ser verificados para a identificação de riscos atrelados a fatores concretos. Essa é a razão pela qual se analisam as bases de clientes em busca de indícios que podem apontar um acréscimo do risco não pelo impacto, mas pela probabilidade.

O sistema regulatório me matéria de PLD/FT considera mais provável que pessoas com um histórico criminal declarado ou pessoas com exposição política, entre outros, possuem uma chance maior de utilizar os produtos de determinada empresa com o intuito de lavar dinheiro.

A AIR típica de lavagem, portanto, não é um procedimento de identificação e de mensuração dos diversos eventos-lavagem possíveis dentro de uma organização específica, e sim uma avaliação a partir da identificação dos elementos que podem aumentar ou diminuir a probabilidade de ocorrência de uma operação ilícita de lavagem.

Por isso são avaliados os causadores de risco e a avaliação precisa considerar a exposição da organização a esses causadores. 

Possuir clientes que sejam pessoas expostas politicamente é um fator que aumenta o risco de lavagem pelo eixo da probabilidade, mas isso pode ser objeto de medidas de prevenção específica, como, por exemplo, saber quem são esses clientes e controlar suas operações. 

Lista PEP

É por esta razão que a AIR não é apenas um procedimento de identificação, mas uma verdadeira avaliação que precisa dizer se as medidas concretas adotadas pela organização tratam corretamente o risco a que a organização se expõe e se são compatíveis com seu apetite de risco.

Uma boa AIR, portanto, precisa incluir uma análise dos gaps da instituição, que podem estar nas etapas de identificação ou mensuração dos riscos, a partir dos elementos que são de análise obrigatória (clientes, produtos, parceiros, etc.) ou nas medidas de tratamento desses riscos, que são os controles adotados.

A etapa final de toda AIR bem sucedida deverá ser um plano de ação para remediar os gaps identificados e prevenir e mitigar os riscos identificados.

Por fim, uma AIR excepcional vai além: antecipa potenciais gaps e riscos futuros a partir dos movimentos de expansão e novos negócios que serão engajados na organização.

Pílulas:

  • Os riscos são a possibilidade e o impacto da ocorrência de um evento danoso para a organização, como, por exemplo, ter um de seus produtos utilizado para lavar dinheiro;
  • Os riscos LD/FT podem ser identificados e mensurados de acordo com a probabilidade e o impacto, de forma direta, avaliando cada evento possível ou de forma indireta, avaliando os gaps da organização;
  • Os gaps são avaliados de acordo com as falhas da organização em identificar, mensurar e tratar mensurar os fatores que podem causar ou aumentar o risco LD/FT, como, por exemplo, os clientes, os produtos, os canais, os parceiros, etc. 
  • Uma boa Avaliação Interna de Riscos aborda não apenas os fatores que causam ou aumentam os riscos, mas também apresenta um plano de ação para prevenir e mitigar os riscos a partir de soluções concretas para os gaps identificados.

 

Por:
Pedro Simões

Especializado na defesa de clientes em causas de direito penal econômico. Possui experiência na atuação de casos de crimes financeiros e contra o mercado de capitais, crimes contra a administração pública, crimes tributários e contra o meio ambiente. Possui também larga experiência em compliance, atuando nos interesses de companhias nacionais e estrangeiras, na estruturação de programas de compliance de prevenção à lavagem de capitais, de prevenção à corrupção e a fraudes privadas e de gestão de dados pessoais. Coordenou algumas das maiores investigações internas na Operação Lava Jato e em outros casos de destaque. Já atuou em investigações e due diligences nacionais e internacionais nas indústrias de Óleo e Gás, Educação, Life Sciences, Mercado de Luxo, Mercado das Artes e Construção Civil.