No dia 25 de junho de 2026, o IPLD realizou o segundo Webinar de sua Série técnica voltada à Gestão de Riscos decorrentes de sanções e designações internacionais de organizações criminosas brasileiras.
Com o tema Mitigação de Riscos na Cadeia de Negócios: KYC, KYP e Gestão de Terceiros, o encontro focou na estruturação da primeira linha de defesa. Para isso, os Especialistas debateram como as ferramentas de identificação, os processos de Due Diligence e o monitoramento comportamental são cruciais para que as instituições consigam blindar suas operações contra as ameaças do crime organizado.
O debate foi moderado por Andréia Vargas, Presidente do IPLD, e contou com as perspectivas e experiências de Gilberto Pacheco, Diretor de Parcerias do AML Group e Silvia Rodrigues, Diretora de Compliance para a América Latina da Alipay.
O desafio da economia formal e a figura do “Laranja”
Na abertura do debate, os Especialistas apontaram que a recente classificação do PCC e do Comando Vermelho pelo governo norte-americano traz desafios práticos muito distintos dos regimes tradicionais de sanções. Diferentemente de cenários com listas estruturadas de partidos políticos ou terroristas internacionais tradicionais, as facções brasileiras operam de forma extremamente pulverizada e infiltrada na economia lícita.
Silvia Rodrigues destacou a complexidade desse cenário no Brasil, ressaltando o uso massivo de intermediários. “A figura do laranja é uma coisa surreal para a gente. Como essa laranja está bem embrenhada na nossa cultura de lavagem, eu acho que cada vez mais a gente vai depender de ter sistemas de monitoramento de transação muito bons.”, explicou.
Por conta dessa infiltração invisível, os processos tradicionais de cadastro no momento do onboarding já não são suficientes. O foco precisa se deslocar da mera análise estática documental para uma visão dinâmica baseada no comportamento e na inteligência de dados, uma vez que o cliente que apresenta documentos perfeitamente regulares pode, na verdade, estar servindo de fachada para uma organização criminosa.
1. Avaliação Interna de Risco (AIR): uma ferramenta necessária, mas que exige atualização
Diante dessas novas designações, surgiu o questionamento sobre a validade das Avaliações Internas de Risco (AIR) vigentes nas instituições. Para Gilberto Pacheco, as metodologias de AIR não estão ultrapassadas, mas demandam uma revisão urgente para refletir a nova dimensão assumida pelo crime organizado transnacional.
“A AIR precisa ser revisada com certeza. Mais do que reclassificar clientes hoje, é necessário qualificar melhor os dados utilizados para identificar esses riscos. O risco agora é muito mais dinâmico e exige um comportamento permanente para que as informações sejam transformadas em inteligência e decisões seguras para os negócios.”, apontou Gilberto.
Essa revisão metodológica deve incorporar elementos que vão além dos fatores tradicionais, como a exposição de setores específicos à infiltração criminosa, os vínculos societários de alta complexidade e a análise aprofundada dos beneficiários finais.
2. Setores econômicos de maior exposição: como evitar a estigmatização de mercados
A infiltração das facções criminosas brasileiras na economia formal abrange uma gama diversificada de setores. Durante o debate, os Especialistas mapearam as atividades econômicas que demandam maior atenção por parte das áreas de Compliance, incluindo:
- Transporte público e logística de cargas;
- Distribuição e comércio varejista de combustíveis (postos de gasolina);
- Mercado imobiliário e construção civil;
- Empresas com intensa circulação de dinheiro em espécie (como comércio atacadista, lojas de brinquedos e estética automotiva);
- Setores emergentes e tecnológicos (como casas de apostas/bets, criptoativos e plataformas de pagamento/fintechs de fachada).
Apesar da vasta lista, Silvia Rodrigues alertou para a necessidade de equilíbrio para evitar a paralisia do mercado ou o overcompliance. “Nossas organizações criminosas são tão sofisticadas que a gente corre o risco de daqui a pouco colocar tudo como risco alto. Se a gente fizer isso, a gente não vai mais conseguir fazer uma classificação de risco de cliente. O monitoramento contínuo é que vai ser a grande ferramenta para ver se faz sentido aquela movimentação.”, ponderou a Especialista.
3. Integração entre Fraude, PLD e Eficiência Cadastral
Um dos principais caminhos apontados para lidar com a sofisticação do crime sem inviabilizar os negócios é a sinergia entre as áreas de prevenção a fraudes e os Programas de PLD-FTP. Atualmente, os órgãos reguladores já enxergam e cobram essa interconexão, dada a proximidade técnica dos monitoramentos.
Do ponto de vista operacional, Silvia sugeriu que as instituições adotem estratégias que evitem fricção excessiva no cadastro inicial do cliente para não prejudicar a competitividade comercial.
O caminho ideal é coletar os dados mínimos exigidos pela regulação e utilizar ferramentas de monitoramento para criar alertas comportamentais baseados em desvios de perfil (clusters). Apenas no momento em que o cliente apresentar movimentações incompatíveis com sua renda declarada é que a instituição deve acionar processos estruturados de Due Diligence para requerer novas informações.
4. O impacto no comércio internacional e a regra dos 50% do OFAC
Para as instituições que atuam no comércio exterior e mantêm relações financeiras globais, o cenário é ainda mais rigoroso. Diferente do mercado puramente doméstico, onde a atuação se concentra em identificar e reportar suspeitas, no comércio internacional o cumprimento de sanções é de execução obrigatória e imediata.
Gilberto Pacheco destacou a importância de as áreas de Compliance dominarem a Regra dos 50% do OFAC, que determina que qualquer entidade que tenha metade ou mais de sua participação societária controlada direta ou indiretamente por uma pessoa sancionada é considerada igualmente bloqueada, mesmo que seu nome não figure explicitamente nas listas oficiais.
Nesse sentido, as instituições brasileiras correm o risco real de sofrer processos de de-risking por parte de seus bancos correspondentes internacionais, principalmente norte-americanos. Diante das novas designações do PCC e do CV, esses bancos correspondentes estrangeiros passarão a exigir das contrapartes nacionais comprovações sólidas e detalhadas sobre as medidas adotadas para evitar que recursos ilícitos trafeguem pelo sistema financeiro global.
Recomendações práticas para a primeira linha de defesa
O webinar evidenciou que a mitigação de riscos na cadeia de negócios exige uma mudança de postura por parte dos profissionais de Compliance. Entre as principais conclusões e práticas recomendadas para o atual cenário, destacam-se:
- Substituir a “fotografia” pelo “filme”: o processo de KYC/KYP não deve se limitar ao momento do cadastro (onboarding). A Gestão de Riscos requer uma postura ativa de monitoramento contínuo e análise transacional.
- Uso intensivo de tecnologia e inteligência artificial: adotar plataformas integradas e bases reputacionais capazes de realizar cruzamento de dados, análise de grafos e rastreamento de beneficiários finais.
- Documentação robusta de decisões corporativas: toda e qualquer tomada de decisão referente à manutenção, restrição ou encerramento de contas e parcerias comerciais suspeitas deve ser rigorosamente formalizada, fundamentada e documentada.
- Treinamento e calibragem de sistemas: ajustar os cenários de monitoramento interno para identificar padrões transacionais atípicos associados a setores de alta circulação de dinheiro ou tipologias comuns de ocultação patrimonial.
O 2º Webinar da Série consolidou o entendimento de que, em um ecossistema financeiro altamente complexo e sob constante vigilância internacional, a eficácia do Compliance reside na capacidade de transformar dados em inteligência preventiva. Proteger a instituição contra os riscos do crime organizado exige o fortalecimento de uma Governança rígida, o uso inteligente da tecnologia e a capacidade analítica de ler os comportamentos por trás dos dados formais.