Segundo especialistas, moedas virtuais facilitam a fiscalização

O registro tecnológico de transferências, depósitos, saldos e pagamentos permite uma fiscalização muito mais precisa pelas autoridades. Práticas como a lavagem de dinheiro são mais difíceis neste cenário


A Polícia Federal achou R$ 51 milhões num imóvel utilizado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima no início de 2018. Na casa de Paulo Vieira de Souza, considerado operador do PSDB, foram encontrados outros R$ 100 milhões neste ano. No mundo do tráfico, não é rara a apreensão de volumosas quantidades de cédulas pelos agentes. São casos diferentes, envolvendo esquemas distintos. Mas altas quantias escondidas têm um motivo em comum: é muito mais fácil fugir da fiscalização dos órgãos competentes quando se tem dinheiro em espécie.

Na ficção, a série dramática Ozark, da Netflix, cujo personagem principal é interpretado por Jason Bateman, um contador envolvido em um sofisticado processo de lavagem de dinheiro, incluindo toda sua família, se vê obrigado a mudar de cidade e a alterar completamente a vida comum que levava, buscando a sobrevivência. Exemplos não faltam desse tipo de crime. A rastreabilidade é mais complexa, assim como a fiscalização e o controle. Esse é um dos argumentos dos especialistas para restringir a circulação de cédulas e moedas.

O registro tecnológico de transferências, depósitos, saldos e pagamentos permite uma fiscalização muito mais precisa pelas autoridades. Práticas como a lavagem de dinheiro são mais difíceis neste cenário. Segundo analistas, movimentações financeiras ilícitas continuariam acontecendo, mas o grau de profissionalismo teria que ser muito maior.

“Existe uma quantia enorme no mundo de corrupção e tráfico de drogas. Algo que não conseguimos estimar, já que é tudo fora da lei. Sempre haverá uma demanda de dinheiro em espécie para essas atividades. Mas a informatização permite que os criminosos tenham que sofisticar suas práticas”, explica Luis Braido, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele ressalta que as cédulas e as moedas não acabaram em países que têm índice perto de 100% de bancarização da população, como o Japão. “No Brasil, a sonegação e os desvios são muito visíveis. Isso também ocorre em outras nações, mesmo que de forma menor. Nos países mais avançados, ainda há dinheiro em circulação”, diz Braido.

Walter Faria, diretor-adjunto de Operações da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), diz que a segurança é um ponto que merece atenção especial no setor financeiro. “Não apenas do ponto de vista pessoal, mas para o conjunto da sociedade: a restrição, o monitoramento e o controle da circulação de dinheiro em espécie são um dos maiores desafios para a prevenção à lavagem de dinheiro e ao combate a atividades criminosas”, ressalta.

Faria explica que, mesmo com o investimento dos bancos em inovações capazes de identificar fraudes nos sistemas, sempre haverá uma limitação com o papel-moeda. “Nas transações realizadas dentro do sistema financeiro, há controles por parte dos bancos e das autoridades, que são continuamente aperfeiçoados. Fora dele, é praticamente impossível rastrear a destinação do dinheiro, o que abre espaço para que seja usado para atividades ilícitas, como pagamento de propina e financiamento do crime organizado”, ressalta Faria.

Investimentos

Na avaliação do executivo, a tecnologia atrai investimentos expressivos dos bancos para garantir comodidade e segurança dos consumidores, além de ter se transformado em uma expressiva porta de entrada para a inclusão financeira de milhões de brasileiros. “Vale destacar que o Banco Central está estudando formas para a redução do uso de dinheiro em espécie. Um dos caminhos analisados se refere à implantação da plataforma nacional de pagamentos instantâneos, que deverá ter liquidação das transações eletrônicas em tempo real entre diversos serviços financeiros digitais, 24 horas por dia, sete dias por semana. A expectativa é de que a plataforma comece a operar em 2020”, diz.

Em nota ao Correio, o Banco Central ressalta que “rastreia dinheiro novo em espécie em seus estoques e nos do custodiante (Banco do Brasil) até sua emissão, e quando passa a circular na economia”. Ainda de acordo com a autoridade monetária, a “Agenda BC+”, que começou a ser implementada em 2016, tem como objetivo garantir, sob uma legislação moderna, um Sistema Financeiro Nacional (SFN) mais eficiente, além de facilitar o acesso de toda a população a meios eletrônicos de pagamento, para que se possa avançar mais da diminuição do uso de dinheiro em espécie.”

*Estagiário sob a supervisão de Odail Figueiredo

Para Saber Mais

O papel-moeda, muitas vezes, representa a cultura de uma população. A libra esterlina, por exemplo, carrega consigo a figura da Rainha Elizabeth II, que é estampada em todas as cédulas do Reino Unido. Já o dólar norte-americano, principal divisa do mundo, traz rostos estampados de ex-presidentes, como Abraham Lincoln, George Washington, além do herói nacional Benjamin Franklin, que, não à toa, estampa a nota de US$ 100, a de maior valor em circulação nos Estados Unidos.

A cultura de representar e identificar figuras notáveis da história de um povo, repete-se de maneira diferenciada no Brasil. Por aqui, as cédulas contam com o rosto de uma efígie simbólica, que, segundo o Banco Central (BC), é um ícone que representa a República. Na face reversa do real, destaque para animais do bioma do país, engrandecendo a fauna e a flora brasileira, como a arara-vermelha, a garça-branca-grande e a garoupa, peixe que estampa a cédula de R$ 100.

“No Brasil, a sonegação e os desvios são muito visíveis. Isso também ocorre em outras nações, mesmo que de forma menor”
Luis Braido, professor da Fundação Getulio Vargas