Presidente do Coaf: problema de combate à corrupção é “cultura da tolerância”


Para o presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Antonio Gustavo Rodrigues, o maior problema de combate à corrupção é a “cultura da tolerância”. Segundo ele, a corrupção afeta de várias formas e começa já na geração do dinheiro para ser lavado.

– Se não se tem uma regulação na geração dos recursos, na própria lavagem, se pode ter problema de corrupção nas próprias empresas privadas. Mas, a maior é a cultura da tolerância, da história da sociedade tolerar certos comportamentos – disse, citando como exemplo um caso em que um paciente vai ao médico e ele pergunta: “você quer recibo?”: “você pode dizer ‘não’ e achar bonitinho. Isso é uma coisa tão ilegal quanto ao sujeito que lava dinheiro. É a cultura”.

O presidente do Coaf, que realizou palestra em um evento no Rio, afirmou que as novas profissões que foram incorporadas pela lei, serviços de assessoria e consultoria, são as mais frágeis no que diz respeito à lavagem de dinheiro. Além disso, citou profissões que lidam com bens de alto valor (joalheiros, venda de artes entre outros).

– Essas profissões deveriam participar desse sistema, comunicar o pagamento em espécie. Porém, como o sistema é muito difuso, com vários tipos de empresas, isto nós sabemos que há um baixo canal de conscientização. Tem alguns que participam meio assim, do tipo para inglês ver.

Rodrigues surpreendeu a todos ao dizer que o setor de seguros tem mais notificação do que o financeiro em termos de comunicação ao Conselho. Na verdade, diz, esse volume todo de comunicações deveria ser compatível com o que ele representa “deveria ter muito menos comunicação. Então temos que verificar na norma, na interpretação, para saber o que está ocorrendo, o que está gerando esse grande volume. Mas, do ponto de vista operacional, essas comunicações são de muito baixa qualidade, pouco ligado a lavagem de dinheiro”.

Quanto à legislação brasileira de combate a lavagem de dinheiro, o presidente do Coaf fez questão de ressaltar que as leis brasileiras estão entre as melhores do mundo. Explicou que a grande questão é que, se tem uma lei nova, uma nova regulação, ela lista uma série de situações de alerta.

– O banco tem uma norma do Banco Central que diz que qualquer movimentação incompatível com a capacidade, são situações que a experiência já mostrou como suspeita. Cabe ao banco, verificando a situação real analisar se suspeita ou não para comunicar – disse, acrescentando que a dificuldade de se obter informações dificulta o fornecimento de informações de identificação: “o caro, na hora de fazer o seguro para não ter trabalho não preenche tudo e comunica ao Coaf, que não diz nada, se o cara foi fazer um seguro ali na esquina. E isso acaba virando uma comunicação que não em valor nenhum”.

Em sua opinião, o Brasil, como todos os países que possuem economias estáveis, são rota de lavagem de dinheiro. Frisou que, quanto mais rico o país, a sua economia, mais propenso ele é sujeito a essas operações.

– Talvez o Brasil fosse menos propenso na época do alto risco, da inflação porque ninguém vai querer botar dinheiro para lavar num país para perder dinheiro com a inflação.