Por que o tráfico de drogas e os sequestros vão continuar a financiar os terroristas da Al Qaeda, mesmo após bin Laden

Até os milionários simpatizantes da causa devem manter as fartas doações ao grupo - mesmo que hesitem no começo, por causa da eliminação do líder


Quando surgiram os primeiros rumores sobre a fragilidade da saúde de Steve Jobs, os acionistas se preocuparam. As ações de sua empresa, a Apple, de fato chegaram a cair consideravelmente num primeiro momento. No entanto, não demorou muito para que se percebesse que Jobs havia criado uma sociedade altamente funcional e independente, que sobreviveria à sua ausência. Algo semelhante acontece agora com os financiadores da rede Al Qaeda. Para a especialista em financiamento ao terror Rachel Ehrenfeld, autora do livro Funding Evil ("Financiando o Mal"), o grupo terrorista pode sofrer alguma turbulência inicial após a morte de Osama bin Laden. Mas logo a independência de suas "franquias" deixará claro aos financiadores da rede que são fortes o suficiente para lutar pelo radicalismo islâmico por meio da violência.

Diferentemente da estrutura nuclear com que a Al Qaeda contava originalmente, hoje a organização é descentralizada, possuindo uma série de “franquias”, como a Al Qaeda da Península Arábica no Iêmen e a Al Qaeda no Magreb Islâmico. Devido à ausência de uma hierarquia única, muitas vezes seus membros não se comunicam com o “núcleo” para realizar os atentados e desenvolvem seus próprios métodos para conseguir os recursos necessários. Em artigo divulgado pela rede CNN nesta quarta-feira, Rachel Ehrenfeld explica que a maioria dos braços da Al Qaeda depende de uma série de atividades ilegais. Além da principal fonte financeira, que são doadores milionários simpatizantes da causa – os "acionistas" da Al Qaeda – espalhados pelo mundo todo, outros recursos vêm desde o tráfico de drogas até o sequestro, muitas vezes em associação com organizações criminosas internacionais.

A Al Qaeda no Magreb Islâmico, por exemplo, tem se mantido desde 2003 graças a receitas provenientes de negociação de reféns sequestrados no Norte de África, principalmente ocidentais. O resgate costuma lhe render muitos milhões de dólares. O problema se tornou tão recorrente que, em setembro de 2010, o secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, fez um apelo ao Conselho de Segurança da ONU para agir com urgência no sentido de combater a prática de sequestros pelo grupo, que também se dedica ao tráfico de drogas, além de receber algumas doações.

Cocaína e heroína

O narcotráfico é também uma fonte importante de recursos financeiros para o Talibã e outros afiliados da Al Qaeda – no Paquistão, Ásia Central, África e até América Latina. O principal produto contrabandeado é a heroína do Afeganistão. Em janeiro de 2010, a Drug Enforcement Administration (DEA), órgão de combate ao tráfico ligado à polícia federal dos Estados Unidos, revelou que as “franquias” da Al Qaeda na África Ocidental cobravam taxas para proteger grupos ligados às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que traficavam cocaína. Países do oeste da África e organizações criminosas são usados há anos pelos colombianos para a transferência de drogas para a Europa, e o envolvimento da Al Qaeda com organizações que traficam drogas da América do Sul tem sido documentado desde o início dos anos 1990. Mais recentemente, membros do grupo terrorista têm sido ligados também a cartéis de drogas mexicanos, por facilitar o acesso dos terroristas aos EUA.

Mesmo assim, as doações milionárias ainda são e devem continuar sendo a principal forma de financiamento das células e "franquias". O chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas, Danny Zahreddine, explica que se o combate ao terrorismo avançou foi porque o Ocidente conseguiu rastrear e bloquear as contas desses agentes. "De toda forma, esse monitoramento ainda é muito difícil. Se os serviços de inteligência criam pessoas físicas e jurídicas e perfis falsos em redes sociais para se infiltrar entre membros de um grupo, o outro lado também realiza ações táticas semelhantes fazendo uso dessas mesmas ferramentas", aponta. O foco dos Estados Unidos no combate ao terror já percebeu a transnacionalidade desses planejamentos terroristas e sabe que não adianta colocar em prática apenas ações convencionais, como nas ocupações do Iraque e Afeganistão.