PMs denunciados no RJ recebiam propina e ofereciam armas e drogas apreendidas, diz MP

Justiça os afastou da função, mas não concordou com prisão. Operação contra o tráfico de drogas foi realizada em nove estados nesta quinta-feira


Uma operação contra o tráfico de drogas em nove estados denunciou nove policiais militares do 9º BPM (Rocha Miranda), Zona Norte do Rio. Eles são acusados de vender armas, drogas e de receber propina de traficantes. A Auditoria da Justiça Militar os afastou de suas funções, mas eles não foram presos.

A acusação foi detalhada em entrevista coletiva do Ministério Público nesta quinta-feira (15). A maioria dos denunciados compunha o Estado-Maior, ou seja, estavam logo abaixo do comando da unidade.

O promotor de Justiça Lúcio Pereira disse que não é possível determinar a mesada recebida pelos policiais, mas citou valores semanais entre R$ 2 mil, R$ 5 mil e até R$ 20 mil, dependendo da importância do cargo.

“Havia um (valor de propina) fixo e um eventual: ‘Estou com um fulano preso e três fuzis, vamos conversar?’ É difícil precisar o valor na negociação”, exemplificou o investigador.

Negociação de propina entre PMs e traficantes

O esquema foi descoberto através da interceptação telefônica de um PM que ainda não era do 9º BPM. Ele se aproximou do líder do tráfico na Serrinha, Zona Norte da cidade, e começou a negociata.

“A facção que domina a Serrinha tem por prática a corrupção de agentes públicos em todos os lugares onde atua. Esse policial contatou policiais do 9º BPM fazendo a intermediação entre a liderança do complexo da Serrinha e negociou a propina”, explica o promotor Lúcio Pereira.

“Além de fazer a intermediação da propina entre o traficante e o policial também obtinha informação de apreensões outras e de armas e oferecia aos traficantes: caixas de munição, fuzis, bolas de pó (grandes cargas de cocaína) que vendia para a facção criminosa. Em algumas negociações, o próprio traficante falava que é muito caro”.

Segundo o MP, os principais envolvidos são os policiais Flávio Fagundes Padiglione, a tenente Adriana da Silva Góes Vista e o major Rodrigo Lavandeira Pereira. Os demais nomes dos policiais denunciados não foram divulgados porque, segundo o MP, o processo está em sigilo. Todos eles foram denunciados por associação criminosa e corrupção passiva.

Operação em nove estados

As investigações dos Grupos de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaecos) resultaram em um total de 300 mandados, entre prisões e buscas, nos nove estados.

A ação é articulada pelo Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), um colegiado que reúne os Grupos de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaecos) do Ministério Público.

As operações acontecem de forma simultânea nos estados do Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro.

Chefe do GNCOC e procurador-geral do Ministério Público de Alagoas, Alfredo Gaspar, explicou que a operação aconteceu nacionalmente para afetar as facções criminosas que são interligadas.

Segundo ele, mais de 90 prisões já foram realizadas até 12h30. Foram apreendidas armas de fogo e granadas.

“Não adianta desarticular um grupo em um local e mantendo a célula (criminosa) em outro (…) Por isso, a necessidade de se fazer a operação no nível nacional. Infelizmente, o crime se nacionalizou no tocante às organizações criminosas”.

Sertão Carioca

Nove policiais foram denunciados na Operação Sertão Carioca, após investigações feitas por meio de interceptações telefônicas.

Eles recebiam propina para fazer “vista grossa” ao tráfico de drogas e avisar aos criminosos sobre operações policiais.

Segundo o MP, os principais envolvidos são os policiais Flávio Fagundes Padiglione, a tenente Adriana da Silva Góes Vista e o major Rodrigo Lavandeira Pereira.

Os nove PMs foram denunciados por associação criminosa e corrupção passiva. A Auditoria Militar recebeu a denúncia e os afastou das atividades.

Sete traficantes também são alvo da operação pelo comércio de drogas na Serrinha, Fazendinha, São José da Pedra e Patotinha, além de homicídios.

Os principais denunciados, ainda segundo os procuradores, são Wallace de Britto Trindade, o “Lacoste”, e Leonardo da Costa, o “Leo 22”.

Operação Smurfing

Seis acusados de lavagem de dinheiro de drogas também são alvos da operação desta quinta. Eles seriam laranjas de integrantes de uma facção criminosa.

No total, foram 3.357 depósitos em dinheiro nas contas pessoais deles em um ano e seis meses.

Nos quase dois anos, foram movimentados pouco mais de R$ 1 milhão e a ocultação se dava em benefício de toda a organização criminosa, e não em benefício de pessoa específica.