Plano de saúde do PCC tinha custo de até R$ 400 mil/mês

Informação consta de investigação em posse do Ministério Público Estadual de SP


SÃO PAULO. O Primeiro Comando da Capital (PCC) mantinha um “plano de saúde” para os integrantes da sua cúpula ao custo de R$ 400 mil por mês, com direito a tratamentos e cirurgias com médicos especializados e até a massagistas. As informações integram a denúncia oferecida pelo Ministério Público Estadual de São Paulo (MPE) à Justiça contra 40 advogados ligados à organização e 14 detentos do grupo por crimes de associação criminosa armada e corrupção, que podem levar a 20 anos de prisão.

A denúncia de 690 páginas, obtida pelo jornal “Estado de São Paulo”, esmiúça o funcionamento da chamada célula R, aperfeiçoamento da antiga “sintonia dos gravatas”, advogados que representavam integrantes da facção. Trocas de mensagens com organogramas e pagamentos foram interceptadas. Segundo o MPE, as funções do grupo deixaram de ser exclusivamente jurídicas e passaram a funcionar como elo de comunicação das atividades criminosas entre os líderes presos e os que estão em liberdade.

Os profissionais passaram também a organizar e custear serviços médicos prestados aos presos integrantes da cúpula. “É certo que o pagamento (…) é feito com recursos de origem ilícita da própria organização, obtidos com o lucro do narcotráfico e demais crimes afins”, diz o documento.

A investigação mostrou que a facção chegou a financiar cerca de 100 cirurgias em 2015 a membros do grupo, um procedimento a cada três dias; os custos chegavam a R$ 400 mil por mês e incluíam exames particulares de especialistas como fisioterapeutas, dentistas, dermatologistas e até massagistas. O atendimento ocorria prioritariamente a detentos da Penitenciária de Presidente Venceslau 2 e da unidade de Presidente Bernardes, onde cumprem pena os líderes do PCC.

“São benefícios que só quem tem plano de saúde, um bom plano, pode usufruir”, disse o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo Especial de Atuação de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), de Presidente Prudente. Os investigadores suspeitam que os procedimentos tenham sido superfaturados, com a cobrança do triplo do valor de mercado para consultas, por exemplo.

Suspeita

Lavagem de dinheiro. As cirurgias, autorizadas pela Justiça, não tiveram nota fiscal emitida e há a suspeita de que a facção estivesse também lavando dinheiro por meio dos atendimentos.

Anuência

Profissionais sabiam da origem do dinheiro

SÃO PAULO. Para o Ministério Público, os profissionais denunciados passaram a integrar o “quadro jurídico” do PCC e contribuíram e concorreram direta ou indiretamente “para o projeto de poder e esquema da maior organização criminosa do País”.

A investigação apontou que os profissionais tinham “plena consciência de que o dinheiro que movimentavam era oriundo do setor do ‘progresso’ (tráfico de drogas), da ‘cebola’ (mensalidade paga pelos integrantes) e das rifas” e usavam escritórios de fachada, que serviam “como ponto de apoio da organização”.

Entre os denunciados da cúpula da facção está Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, atualmente na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. “Desde 2006, depois dos ataques, ele nunca mais deixou de liderar a facção criminosa”, disse o promotor Lincoln Gakiya.