Parentes de dirigentes chineses mantêm fortunas em paraíso fiscal

Genro do presidente Xi Jinping e filha do ex-premiê Wen Jiabao estão em lista dos que têm contas não declaradas nas Ilhas Virgens Britânicas


Parentes de mais de doze dirigentes políticos e militares da China mantêm empresas de fachada e contas nas Ilhas Virgens Britânicas, famoso paraíso fiscal no Caribe, segundo reportagem da edição desta quarta-feira do jornal britânico The Guardian. O cunhado do atual presidente da China, Xi Jinping, assim como o filho e o genro do ex-premiê Wen Jiabao estão entre as pessoas que fazem uso do paraíso fiscal. Os documentos também revelam o papel central dos grandes bancos ocidentais e firmas de contabilidade, incluindo PricewaterhouseCoopers (PwC), Credit Suisse e UBS no mundo das transações financeiras suspeitas e possível lavagem de dinheiro chinesas, agindo como intermediários entre empresas de fachada e instituições financeiras. O escritório de Hong Kong do Credit Suisse, por exemplo, foi responsável por montar a empresa offshore Trend Gold Consultants para Wen Yunsong, filho de Wen Jiabao. A empresa sediada nas Ilhas Britânicas foi criada durante o mandato de Jiabao como primeiro-ministro (2003 – 2013). A PwC e o UBS realizaram serviços semelhantes para centenas de outros indivíduos chineses ricos.

Os arquivos revelam a existência de uma empresa offshore chamada Fullmark Consultants, que pertence a Liu Chunhang, casado com a filha de Wen Jiabao, Lily Chang. A  empresa foi criada em 2004 e Chunhang figurava como proprietário e único acionista até 2006, quando ele assumiu um cargo na agência de regulação bancária da China. Depois disso, a propriedade da empresa foi transferida para Zhang Yuhong, um empresário que possui conexões pessoais e interesses comerciais com a família de Wen. A empresa, estabelecida com ajuda do Credit Suisse, foi dissolvida em 2008, com poucos indícios sobre quais operações fazia. No entanto, sabe-se que um dos propósitos de proprietários de empresas offshore é a criação de contas bancárias em nome da companhia, uma medida legal que, todavia, dificulta o rastreamento de ativos financeiros de origem suspeita.

Nenhum dos membros da família de Wen nem Zhang Yuhong responderam aos questionamentos dos jornalistas sobre a empresa offshore. Um porta-voz do Credit Suisse se recusou a comentar sobre qualquer caso ou cliente específico e disse que o banco tinha "procedimentos detalhados para lidar com pessoas politicamente expostas". Acrescentou ainda que a instituição está em conformidade com os regulamentos de lavagem de dinheiro na Suíça e em outros lugares.

Offshore Secrets

A divulgação do uso de estruturas financeiras secretas por pessoas ligadas ao alto escalão político da China é a mais recente revelação do programa 'Offshore Secrets', um projeto de comunicação que há dois anos é conduzido pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ). Os jornalistas obtiveram mais de 200 gigabytes de dados financeiros que vazaram de duas empresas nas Ilhas Virgens Britânicas e compartilharam as informações com o Guardian e outros meios de comunicação internacionais. Ao todo, os dados do ICIJ revelam que mais de 21.000 clientes da China continental e Hong Kong têm empresas em paraísos fiscais no Caribe, levantando sérias suspeitas sobre a origem do dinheiro e o mau uso de verbas públicas por parte de políticos e empresários próximos ao governo chinês.

Como nem as autoridades chinesas, nem suas famílias são obrigados a emitir divulgações financeiras públicas, os cidadãos do país nunca souberam da existência de estruturas offshore que podem facilitar a evasão de impostos, lavagem de dinheiro ou a movimentação de capitais no exterior. De acordo com estimativas, ativos não identificados no valor entre 1 trilhão e 4 trilhões de dólares deixaram a China desde 2000.

O rápido crescimento da China está elevando o grau de tensão dentro da nação, já que apenas uma pequena parcela de chineses parece se beneficiar do sucesso econômico do país. Na China, segundo estatísticas, os 100 homens mais ricos detém, juntos, uma fortuna estimada em mais 300 bilhões de dólares, enquanto cerca de 300 milhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia. O governo chinês tem feito esforços para reprimir os movimentos de cidadãos que visam promover a transparência ou prestação de contas da elite política do país.

Os registros confidenciais obtidos pelo ICIJ referem-se à incorporação e propriedade de empresas offshore, o que é legal, e dá pouca ou nenhuma informação sobre a origem do dinheiro. As empresas offshore podem ser uma ferramenta importante para companhias chinesas, especialmente quando operam no exterior, devido às restrições e legislação do país.