Para esconder propina, Odebrecht usou quatro níveis de conta, diz delator

Responsáveis pela empreiteira abriam contas em mais de um país, com funções distintas, desde o depósito do dinheiro até o repasse a políticos.


O ex-executivo da Odebrecht Luiz Eduardo Soares afirmou em depoimento que a empresa criou um sistema com quatro níveis de contas bancárias no exterior para evitar o rastreamento do dinheiro da empresa que servia para pagamento de propina a políticos.

A afirmação foi feita ao Ministério Público Federal dentro de acordo de delação premiada no âmbito da operação Lava Jato.

Soares afirmou que o sistema surgiu após a criação do setor de operações estruturadas, responsável pelos pagamentos irregulares.

De acordo com ele, antes disso a empresa usava doleiros para pagar propina, mas resolveu mudar o sistema depois da repercussão da Operação Farol da Colina, deflagrada em 2004, que investigou remessa ilegal ao exterior e lavagem de dinheiro e envolveu o Banestado.

O delator afirma que a primeira instituição no exterior utilizada para fazer os pagamentos pelo recém criado setor de operações estruturadas foi o uma offshore do Trendbank localizado nas Ilhas Saint Vicent.

“Nessa época, como nós não tínhamos um banco pra fazer esse tipo de pagamento, já tava no momento da operação Farol de Colina, todo mundo muito preocupado com isso, o Olívio [Rodrigues Junior] conseguiu um contato com Trendbank, do Adolpho Mello, e ela, nós começamos. O Trendbank de Adolpho Mello tinha um banco offshore nas ilhas Saint Vincent e Granadine. E podia fazer esse tipo de pagamento. Então, eu colhi informações com o Adolpho, com a sua anuência, e começamos a fazer esse tipo de pagamento através do Trendbank”, relatou ele aos investigadores.

Soares informa no depoimento que o Trendbank era o “canal de saída” do dinheiro da Odebrecht do Brasil para o exterior. A partir daí, a empresa passou a “montar uns canais para que chegasse o dinheiro nessas contas.”

“A ideia era ter um canal que seria um nível dois, que seria onde o dinheiro seria gerado. Transformaria-se em dinheiro frio, seria geração de recursos, no nível dois”, disse o delator. Segundo ele, as contas de nível dois, no exterior, ficavam em “nome de terceiros”.

Abertura de contas no exterior

Soares conta que teve a função de abrir contas em diversos bancos no exterior, inclusive as designadas para o nível três – que serviam para criar uma dificuldade adicional de rastreamento – e as de nível quatro, que finalmente eram responsáveis pelos pagamentos das propinas.

“Gostava muito de fazer isso [abertura de contas] na Suíça, por causa do nível de segurança de informações que tinha à época, e na Áustria também e na Ilha da Madeira”, contou aos investigadores.
O principal critério para a escolha dos bancos, e dos países, era a existência de legislação protegendo o sigilo bancário e a falta de acordo de troca de informações com o governo brasileiro.

“A gente procurava sempre países que tinham ou um nível de segurança de intercâmbio de informações muito boa, ou também com bancos que fossem não muito grandes, e que a gente tivesse acesso a cúpula do banco”, afirmou Soares.

O delator confirma aos promotores que o objetivo do sistema era “dificultar o rastreamento” das informações sobre a origem dos recursos pagos irregularmente.

Antigua Overseas Bank

De acordo com Soares, a Odebrecht deixou de trabalhar com o Trandbank em 2008, quando passou a usar os serviços do Antigua Overseas Bank. O delator afirmou que a razão para a mudança foi que, a partir daquele ano, o volume de recursos irregulares pagos pela empresa aumentou muito e o Trandbank “estava muito pouco.”

“Eles [Antigua Overseas Bank] nos ajudavam a abrir essas offshores, na parte de nível 4. Na parte de nível 2 e 3, tem um advogado em Miami que nos ajudava muito a fazer que é o seu Paulo Miranda”, relatou ele.