O novo Vaticano de Francisco


"Bertone e o Banco do Vaticano são a prova de que Satanás existe". Essa era a manchete de um jornal em 2012. Tudo continuou a piorar na sede da religião católica. O ano de 2010 foi considerado como "annus horribilis". Foi dominado por revelações horripilantes de falcatruas, assédios e estupros. Depois, em 2012, veio o escândalo conhecido como Vatileaks: páginas e páginas de documentos começaram a aparecer na imprensa italiana, revelando todo um mundo de corrupção financeira e de cruentas lutas internas.

Francisco vem promovendo profundas reformas em diversos setores, como transparência financeira, intolerância no trato com abusos sexuais perpetrados por padres, abertura diplomática entre Cuba e Estados Unidos e a reforma da Cúria. Foi interrompido o padrão da transferência silenciosa de padres criminosos, o Vaticano exonerou 384 padres.

Também foi instituída uma agência reguladora das finanças, a Autoridade de Informação Financeira (AIF), que passou a controlar o Instituto para as Obras de Religião (IOR). Antes, o dinheiro do Vaticano era fonte de embaraço, figurava entre os 10 maiores paraísos fiscais offshore do mundo, abrigando evasões de impostos e lavagem de dinheiro.

Foi assinada uma lei anti-lavagem de dinheiro com o propósito de identificar transações suspeitas e trocar informações com bancos estrangeiros. Em silêncio foram fechadas 4.600 contas. Quinze pessoas passaram a integrar um comitê de supervisão econômica – composto por oito cardeais e sete leigos. Também foi nomeado um auditor-geral, que além de poder auditar qualquer entidade do Vaticano, responde diretamente ao Papa. Francisco se diz "um pouco ingênuo", mas também " um pouco furbo" (astuto, esperto, malandro).

São famosos seus gestos que denotam uma vida de humildade e caridade altruística. Mas também está se tornando famosa sua insistência em "chacoalhar as formas tradicionais de governar o Vaticano". Já no início de seu mandato identificou cerca de US$ 1,2 bilhão que nunca constaram do balanço do Vaticano. Quando começaram a trabalhar, disseram que o Vaticano compreendia por volta de 65 instituições, verificaram que são 136.

Como é que alguém descobre ser possuidor de US$ 1,2 bilhão e de 71 instituições a mais? Estima-se que o Vaticano seja o dono de 20% dos imóveis de toda a Itália e de 25% dos imóveis de Roma. Até o estilista Valentino pagava uma ninharia pelo aluguel de um imóvel de luxo pertencente ao Vaticano. Era uma bagunça generalizada. Os imóveis do Vaticano foram estimados em US$ 3 trilhões, soma comparável ao PIB da Rússia ou do Brasil. Todo esse imenso patrimônio está sendo organizado. O grupo que conta com a simpatia de Francisco deseja operar dentro do sistema capitalista para mudar um pouco o próprio sistema, investir diretamente em países pobres e mudar sua estrutura.