O governo vai tentar cercar o crime organizado pelo lado financeiro

“Seguir o dinheiro” foi a tática utilizada pelos Estados Unidos para tentar reduzir as ameaças do terrorismo depois do 11 de Setembro. Daí nasceram muitas leis de combate à corrupção e à lavagem de dinheiro.


A política no Brasil virou modo e meio de vida. E com que modos e com que insondáveis meios!

Finalmente, depois de três massacres, de mais de cem prisioneiros mortos com requintes de extrema crueldade, e da demonstração, ao vivo e em cores para todo o Brasil, que o principal presídio de Natal tem um dono e senhor, o crime organizado, o presidente Michel Temer e seus conselheiros se convenceram que a situação do sistema prisional brasileiro e também da segurança pública é de extrema gravidade, não algo pontual e localizado.

Agora, ele corre contra o tempo para não apenas “minimizar” o problema, com soluções de médio e longo prazo, mas para tentar conter a origem da perda pelo Estado do domínio das prisões e segurar avanço da criminalidade e da “insegurança pública” em geral fora das grades. Segundo o próprio presidente informou ao jornalista Gerson Camarotti, da Globonews, ele vai se reunir hoje com os representantes dos 37 órgãos que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência para unificar a ação de todos eles de forma a contrapor-se ao poder das organizações que comandam o crime no país, cada vez mais audaciosas, dentro e fora da prisão.

Um dos aspectos mais interessantes dessa nova estratégia é que entre os órgãos convocados está o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf), responsável por acompanhar a movimentação de dinheiro no país e levantar irregularidades, corrupção, lavagem de dinheiro e que tais. Ele vai tentar “seguir o dinheiro” que sustenta o crime. Foi com um cerco desse jeito que os Estados Unidos começaram a tentar garrotear o terrorismo internacional, depois do 11 de Setembro. Daí nasceram várias leis em diversos países, inclusive no Brasil, de combate à corrupção. A cooperação internacional nesta área é cada vez maior e graças a ela, por exemplo, a Operação Lava-Jato conseguiu estender seus tentáculos aos negócios suspeitos de brasileiros no Exterior. A ver se vai adiante. Para isso, porém, será preciso fortalecer a Coaf.

Também hoje, o ministro da Justiça, Alexandre de Morais, nome anda na berlinda, vai tentar, com os secretários de Segurança dos estados uma política comum de segurança e de modificação do sistema prisional para conter a escalada da violência. Há propostas de ampliar a Força Nacional de Segurança, hoje com apenas mil homens, para sete mil. Diz a “Folha de S. Paulo” que os governadores estão pressionando Temer para FN passar a atuar também dentro dos presídios. O presidente reúne-se amanhã em Brasília com os governadores. Segundo o blog do Josias de Sousa, Temer vai pedir ajuda aos governadores também para o garroteamento das finanças criminosas.

Por falar em tudo isso, há muitas orelhas cheias de pulga atrás depois da reunião de domingo do presidente Michel Temer com o jurista Ayres Britto, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Aparentemente foi apenas uma troca de ideias. A “Folha” diz que o presidente foi buscar em Britto apoio para uma interlocução maior com a ministra Carmem Lúcia, atual presidente da Corte. Pode ser, mas Britto foi cotado para a Justiça quando o governo Temer estava se instalando.

A respeito da economia, o governo continua vendendo otimismo. Em Davos, Suíça, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles disse que no quarto trimestre a economia nacional estará crescendo no ritmo de 2%. Em entrevista à Reuters, o presidente Michel Temer disse que o PIB deve dar sinais de crescimento no primeiro trimestre. Não é o que prevê o FMI.