‘Nós temos que prender os criminosos e ir atrás do dinheiro deles’, diz novo secretário de Polícia Civil do RJ

Marcus Vinícius Braga disse que Operação Lava Jato ajudou a mudar cultura policial no Brasil. Para ele, é hora de 'entrar de cabeça no combate ao crime organizado no tocante ao dinheiro'.


O combate à corrupção e lavagem de dinheiro das organizações criminosas será prioridade na Polícia Civil do Rio. É o que promete o secretário de Polícia Civil, Marcus Vinícius Braga. Para ele, não basta prender os criminosos: é preciso uma mudança de cultura dentro da corporação.

“São 170 delegacias que terão que mudar sua cultura. Nós não podemos terminar com a prisão dos criminosos em si. Nós temos que prender os criminosos e ir atrás do dinheiro deles”, afirmou ele.

Braga reconhece a importância da Operação Lava Jato como um divisor de águas na investigação de crimes de corrupção.

“Não era cultura não só da Polícia do Rio, mas do Brasil. Isso começou com a Operação Lava Jato. E, a polícia do Rio de Janeiro, a gente entende que está na hora de surfar nessa onda, entrar de cabeça no combate ao crime organizado no tocante ao dinheiro deles”, destacou o secretário.

Marcus Vinícius Braga tem 47 anos, é ex-diretor geral de Polícia Especializada (DGPE) da Polícia Civil e policial civil há mais de 20 anos. Ele afirma que a nova estrutura contará com 10 delegados e 80 agentes no Departamento-Geral de Investigação à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DGICCORLD).

O departamento é vinculado à subsecretaria operacional do órgão, comandada pelo delegado Fábio Barucke. Entre os setores do departamento estão equipes especializadas em:

  • Crimes violentos (milícia, tráfico de drogas, roubo de carga e roubo de carro)
  • Crimes de colarinho branco e contra a administração pública
  • Recuperação de Ativos (recuperação de dinheiro tirado do Estado)
  • Laboratório de Lavagem de Dinheiro

Este último poderá ser utilizado por todas as delegacias de Polícia Civil do RJ.

Caso Marielle

Marcus Vinícius afirmou que confia na condução do delegado Antônio Ricardo Lima, diretor do Departamento de Homicídios, e de Giniton Lages, delegado responsável pelo caso, para solucionar o caso das mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Desde o crime, a sociedade civil e autoridades perguntam: “Quem matou Marielle?”

“Eu tenho total confiança no Antônio Ricardo. Eu conversei com ele, ele teve acesso à investigação, e ele me garantiu que as investigações estão avançadas, o Giniton continua, com todos os recursos possíveis. Eu vi alguns passos da investigação, o sigilo é importante, e a gente não pode abrir mão”, ressaltou o secretário.

Durante a campanha do então candidato Wilson Witzel, o atual governador apareceu junto com os candidatos a deputado estadual e federal, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira, em um comício. Amorim e Silveira, ambos eleitos, quebraram a placa com o nome de Marielle que havia sido colocada na Cinelândia. Apesar da polêmica, Braga diz que o crime será investigado com toda a seriedade que merece.

“A gente trata esse homicídio de uma maneira muito responsável. A morte da vereadora Marielle é uma morte que tem que ser investigada e chegar aos autores. Quando você investiga a morte da vereadora Marielle, você está investigando um crime cometido contra toda a sociedade”, disse.

Investigação de mortes policiais será reforçada

A crise financeira que o estado vive desde 2015, segundo o secretário, impede a criação de outras iniciativas. O núcleo de investigação de mortes de policiais da Delegacia de Homicídios da Capital, agora ligado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP), já foi reforçado e teve sua equipe dobrada. Braga, no entanto, queria mais, pois acredita que a investigação dessas mortes deve ser prioridade.

“O meu objetivo é, dependendo do que a gente tiver de recursos humanos, a partir de 2019, 2020, criar uma delegacia específica para investigar morte de policiais. A morte de policial mata o Estado, mata todos da sociedade. Só que eu não tenho condições ainda”, lamentou ele.

Enquanto isso, a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) e a Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) devem criar seus próprios núcleos para investigar a morte de agentes nessas regiões.

O DGHPP, segundo ele, será reforçado, porque será “prioridade”. Na segunda-feira (14), 110 novos policiais já devem ser lotados no departamento. Outros 70 policiais serão divididos entre outras unidades, como o departamento de combate à corrupção, crime organizado e lavagem de dinheiro e a Delegacia de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco).

‘Legítima defesa’, diz secretário sobre ‘abate’

O governador Wilson Witzel é chamado por Marcus Vinícius de “revolucionário”. Ele afirmou ainda que sua posição sobre a proposta de “abate” de criminosos com fuzil, defendida pelo governador, se limita ao artigo 25 do Código de Processo Penal.

“Artigo 25, perigo iminente. Só isso”, afirmou, lacônico.

O texto do artigo diz: “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”.

‘Corregedoria e Draco’

O trabalho da corregedoria da corporação, segundo ele, continuará com “firmeza e autonomia”, e a subsecretaria de Inteligência, extinta junto com a Secretaria de Segurança, será suprida por órgão semelhante na estrutura da Polícia Civil. “A grande maioria dos policiais que estavam na subsecretaria da extinta Seseg estão nesta subsecretaria”, ressaltou.

Braga considerou acertada a decisão do governador Wilson Witzel de extinguir decreto que permitia a agentes da corregedoria escolherem suas lotações se saíssem do órgão correcional. Segundo ele, os casos estão sendo avaliados um a um.

“Enxergo como acertada demais. O que a gente fez para garantir a segurança desses agentes é avaliar caso a caso. Nós vamos estudar cada um. Se a gente entender, que em razão da sua atribuição, ele tiver algum risco em unidade A, B ou C, nós vamos tirá-lo de lá”, garantiu.

A volta da Delegacia de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco) para a estrutura da Polícia Civil, segundo ele, repara um “monstrengo jurídico”.

“Ela voltou de um lugar de onde nunca deveria ter saído. É esdrúxulo uma delegacia fora da Polícia Civil”, disse o delegado sobre a Draco, que será comandada pelo delegado Gabriel Ferrando. A delegacia, que investiga principalmente milícias no Rio, terá reforço no número de agentes.

Para Braga, investigações sobre milícias e grupos criminosos com participação de agentes do Estado não serão enfraquecidas com o fim da Seseg e a volta da delegacia à estrutura da Polícia Civil:

“Quem está preocupado com isso faz parte de um processo de demonização da Polícia Civil. Não vejo problema nenhum de a Draco estar dentro da estrutura. E se estiverem envolvidos servidores públicos nas organizações criminosas, vamos trabalhar”, finalizou.