Mundo da arte reflete o domínio das finanças, é dinheiro fazendo dinheiro

Para especialista, investimento lucrativo em arte é pouco acessível para pessoas comuns, e o mercado ainda resiste à regulamentação


Uma feira em Hong Kong, um evento a portas fechadas em Luxemburgo, as transações obscuras de um xeque no Qatar. Com descrições minuciosas de cenas ao redor do mundo, o livro de Georgina Adam narra o funcionamento do meio da arte e suas operações nem sempre transparentes.

Repórter de arte do Financial Times e do jornal The Art Newspaper por mais de 30 anos, a pesquisadora e professora do Instituto de Arte Sotheby’s juntou dezenas de entrevistas para lançar seu “Dark Side of the Boom: the Excesses of the Art Market in the 21st Century” (lado obscuro do boom: os excessos do mercado, sem edição brasileira) em que ilumina a face menos glamorosa do mundo da arte contemporânea —especulação, fraude e lavagem de dinheiro. De Londres, ela respondeu às seguintes questões.

Recentemente, Bernard Arnault, François Pinault e outros bilionários foram criticados por oferecer enormes quantias para reconstruir a Notre Dame, em vez de usar o dinheiro em causas humanitárias. Como vê essa dualidade? É difícil. Ambos oferecem dinheiro e depois foram criticados. Teria sido melhornão dar nada? É engraçado como houve um concurso: Pinault ofereceu € 100 milhões, Arnault aumentou as apostas com € 200 milhões —“o meu é maior que o seu”! Pessoalmente, acho que a Notre Dame  é tão importante, é uma conquista cultural tão magnífica, que é certo que esses bilionários ofereçam dinheiro. Em um mundo perfeito, é claro que essas grandes empresas dariam mais para causas filantrópicas. Mas não é um mundo perfeito e pelo menos eles deram dinheiro.

Algumas passagens do livro dão a entender que arte contemporânea como investimento só vale a pena para quem tem acesso e informação privilegiada. O que a combinação arte e finanças nos diz sobre o mundo atual? Definitivamente, o investimento lucrativo em arte é difícil para a pessoa comum. Um Picasso de 1932 provavelmente seria um ótimo investimento, mas qual é o preço? A compra de alguns artistas “blue-chip”, como Richter, também poderia ser, mas os galeristas filtrarão os compradores e preferirão colecionadores e museus estabelecidos, de modo que um recém-chegado terá dificuldade. Nos níveis mais baixos de preços, é muito mais difícil ganhar dinheiro comprando arte. O mercado de arte reflete o aumento da riqueza e da desigualdade. Também reflete o domínio das finanças: dinheiro fazendo dinheiro.

Seu livro descreve aproximação crescente entre arte e mercado imobiliário. Como esse processo funciona? A arte contemporânea entrou na pauta, com esculturas monumentais e outras formas artísticas usadas como forma de promover imóveis, shoppings, hotéis e bairros inteiros (os chamados “art districts”). É um fenômeno que contribui para a difusão da arte contemporânea e seu fascínio junto a um público mais amplo.

Quais museus estão respondendo melhor às demandas midiáticas da arte contemporânea sem perder relevância no debate público? Acho que a Tate Modern faz um bom trabalho.

Seu livro fala do mercado de arte como um campo fértil para fraude, especulação e lavagem de dinheiro. Onde mora a dificuldade de regulamentação? Por um lado, o mercado resiste à regulamentação; por outro, o governo não vê isso como uma prioridade. A dificuldade de avaliar corretamente o preço de uma obra de arte também é um elemento, assim como sua opacidade nos registros de propriedade [saber quem detém efetivamente uma obra].

Como os movimentos de igualdade de gênero e raça que se espalham pelo mundo estão sendo recebidos pelo mercado da arte? Quando a arte feminista e negra se torna “moda”, a mensagem ganha ou perde sua força? Há algo de “surfar na onda” sobre o mundo da arte “descobrindo” repentinamente mulheres e artistas negros. Mas pelo menos isso aconteceu e eles finalmente estão recebendo o reconhecimento que merecem.A questão interessante é: devemos encarar essas obras de arte como “obras de artistas negros e mulheres” ou simplesmente como obras de arte? No dia em que isso não for mais relevante, saberemos que a paridade foi alcançada.

Você já esteve no Brasil? Quais são os seus pontos fortes e impressões sobre a arte brasileira, cena institucional e mercado de arte? Sim, estive no Brasil duas vezes e espero voltar em 2020. Eu me encontrei com o novo presidente da Bienal [José Olympio Pereira]. Sinto que há um aprofundamento do interesse em arte no país, o que é encorajador, mas fiquei entristecida com o incêndio trágico do Museu Nacional.

Qual foi a coisa a mais linda ou tocante que viu em tantos anos acompanhando? Foram tantas! Uma foi ter visto o terreno vazio em Doha, em 2007, destinado ao museu de arte islâmica, e depois voltar lá para a inauguração e ver o museu convertido em realidade.