”Moedas virtuais trazem risco reputacional”, alerta ex-diretor do BC

Para Aldo Luiz Mendes, criptomoedas enfrentam dificuldade para cumprir papéis tradicionais das moedas físicas. ''É um universo pequeno que negocia com isso'


Ao discursar no Correio Debate 25 anos do Real sobre como a tecnologia está mudando a relação dos brasileiros com o dinheiro, o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Luiz Mendes, disse que é preciso ter cautela quanto à utilização das chamadas criptomoedas, nomenclatura usada para se referir a moedas digitais. Segundo ele, por não serem emitidas por autoridade central, nem serem controladas ou fiscalizadas, as criptomoedas enfrentam dificuldade para cumprir papéis tradicionais das moedas físicas.
 
“Elas têm dificuldade de aceitação porque pouca gente faz transações com elas. É um universo pequeno que negocia com isso. Como reserva de valor, elas são extremamente arriscadas. Basta ver a volatilidade que a bitcoin tem oferecido”, analisou, no painel O Brasil do futuro: um mundo novo a ser explorado, tecnologias e dinheiro.
 
Além disso, Mendes lembrou que “o anonimato das moedas dessa natureza traz risco reputacional e dificuldades com relação ao programa de prevenção à lavagem de dinheiro”. “Não há como rastreá-las e elas estão sujeitas a ataques cibernéticos. No futuro ela pode vigorar? Sim. Mas, até agora, não se provou substituta da moeda convencional”, destacou.
 
O ex-diretor do BC também se mostrou reticente quanto ao potencial disruptivo das fintechs, segmento das startups que criam inovações na área de serviços financeiros, com processos baseados em tecnologia. 
 
“O potencial ainda está por se provar. As fintechs enfrentam dois grandes problemas: de escala e de inadimplência. Os bancos digitais entram no mar da internet à busca de clientes, mas quando jogam a rede, encontram clientes bons e ruins. Isso é arriscado. Você não conhece aquelas pessoas. Não tem histórico de relacionamento com elas. Além disso, os bureaus de crédito no Brasil não são suficientemente avançados para te dar boa segurança na hora de aprovar crédito. O cadastro positivo está incipiente”, alertou.
 
Segundo ele, o BC precisa investir na ampliação do sistema financeiro, como a ação regulatória que normatização novos métodos de pagamento. “Nós trouxemos para o sistema financeiro uma boa parte da população que antes só fazia transações com dinheiro. Hoje, a sociedade não precisa necessariamente ter uma conta nos bancos tradicionais. Basta um cadastro em instituições de pagamento virtuais. Isso universalizou o uso de instrumentos como cartão de crédito e débito”, analisou.
 
Para os próximos anos, de acordo com Mendes, o BC tem de elaborar um sistema de pagamentos instantâneos, onde qualquer pessoa possa fazer transferências por meio do celular, sem a necessidade de aplicativos e com cobranças de tarifas mais amenas. 
 
“É um projeto que o BC precisa colocar em marcha e que pode funcionar como disruptivo ao sistema de cartão de débito. As barreiras tecnológicas estão caindo rapidamente e está ficando mais barato fazer isso. Um órgão como o BC, ao assumir a gerência e a governança desse sistema, vai permitir que mais pessoas seja integradas ao sistema formal de finanças”, pontuou.