Máfia italiana sofistica ações e ganha terreno no Brasil


O italiano Francesco Salzano, de 38 anos, deverá ser extraditado para seu país nas próximas semanas. Está preso em Fortaleza, desde fevereiro, a pedido da Justiça de Nápoles, que o identifica como integrante do "clã dos Casalenses" e autor de um triplo homicídio "com premeditação": na tarde de uma sexta-feira, 8 de maio de 2009, matou Giovanni Battista Pappa, Modestino Minutolo e Francesco Buonanno. Foi um acerto de contas dentro da Camorra napolitana, na região de Caserta, sul da Itália.

Salzano é um "capo" (chefe) dessa máfia napolitana, cuja história se confunde com a biografia de Antonio Bardellino, líder-fundador da confederação de quadrilhas conhecida como Camorra. Bardellino submeteu os adversários a uma autêntica guerra, a partir do final dos anos 70, deixando um rastro de três mil mortes nas ruas das províncias de Nápoles e Caserta, segundo o governo italiano.

Bardellino fez história ao unir e consolidar o comando das quadrilhas camorristas, mantendo estilo de chefão à moda antiga, como modelado por Marlon Brando no clássico filme "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola. Ele foi pioneiro na abertura de rotas de tráfico de cocaína da América do Sul para os Estados Unidos, financiado pela família Gambino, de Nova York.

No início dos anos 80, instalou no Brasil a base de seus negócios com fornecedores colombianos de cocaína. E viveu entre as praias do Rio e de Búzios até a manhã de uma quinta-feira, 26 de maio de 1988, quando desapareceu – teria sido assassinado por seu "conselheiro", Mario Iovine, em um novo capítulo da disputa pelo comando da Camorra.

O problema é que o corpo de Bardellino nunca foi encontrado. Seu "conselheiro" foi fuzilado três anos depois em uma cabine telefônica de Cascais, Portugal. E seu amigo Tommaso Buscetta disse à Comissão Antimáfia do parlamento italiano não acreditar que ele está morto. Buscetta foi preso em São Paulo em 1983. Extraditado para a Itália e, mais tarde, para os Estados Unidos, delatou toda a cúpula da Cosa Nostra e centenas de políticos italianos. Morreu em 2000, aparentemente de causas naturais.

Bardellino tornou-se uma lenda mafiosa na América do Sul e figura na lista dos "mais procurados" da Interpol. Os negócios que criou no Brasil crescem, como demonstram os inquéritos judiciais que levaram à prisão de Francesco Salzano, em Fortaleza, e de mais 64 pessoas envolvidas com a Camorra, entre elas uma brasileira, em cidades da Espanha na última quarta-feira.

O grupo desmontado pela polícia espanhola operava uma rede de 25 empresas com correspondentes em 16 países, incluindo o Brasil. Especializara-se na lavagem de dinheiro, via falsificação de máquinas e ferramentas para indústrias. Financiava a produção clandestina na China e vendia as réplicas chinesas como se fossem produtos autênticos, de reconhecidos fabricantes ocidentais, para indústrias de Brasil, Espanha, Suíça e EUA, entre outros países.

O avanço das máfias italianas na América do Sul e, em especial, no Brasil, é reflexo da flexibilidade de seu caráter empresarial. Elas se anteciparam aos processos de globalização e das finanças, constata Francesco Forgione, deputado da Renovação Comunista, da Calábria e ex-presidente da Comissão Parlamentar Antimáfia (2006 a 2008). Ele é autor do livro "Máfia Export", que está sendo lançado no Brasil.

Um caso emblemático é o do operador financeiro Claudio Boscaro, de 48 anos, suíço. Desde sua prisão em Palma de Maiorca (Espanha), em 2002, ele fornece à polícia financeira italiana detalhes de uma sofisticada engrenagem no eixo Brasil-Suíça para lavar o dinheiro obtido pelas máfias italianas no tráfico de cocaína produzida na Colômbia, Peru e Bolívia para o mercado europeu, via África. Um dos condimentos das operações na rota africana de tráfico para a Europa – via portos brasileiros, como os do Rio e de Fortaleza -, é o contrabando de armas para bandos africanos e sul-americanos, como as Farc, principal grupo narcoguerrilheiro colombiano.

Conhecido como "Occhialino" (oculozinho, por causa do tamanho dos óculos que sempre usou), Boscaro atuou como operador financeiro de um dos ramos da máfia mais ativos na América do Sul. Seus negócios fizeram parecer ancestrais as "exportações" de farinha de peixe conduzidas pelo "capo" Bardellino a partir da Brasfish, instalada em Búzios desde os anos 80.

Como predominam duas moedas no negócio sul-americano de cocaína – dólares e pedras preciosas -, Boscaro montou uma rede de empresas financeiras em Lugano (Suíça) para operações diretas com bancos de Genebra. E estabeleceu conexões com lapidadores de Antuérpia (Bélgica) para revenda de diamantes brasileiros e esmeraldas colombianas recebidos no tráfico de cocaína.

– Eles estão cada dia mais sofisticados e estão, a cada ano, investindo mais no Brasil – diz Walter Maierovich, juiz aposentado que criou o Instituto Giovanni Falcone, uma das organizações antimáfia mais atuantes da América do Sul.

Falsificações aprimoradas

O desmonte da rede de falsificação de máquinas e ferramentas industriais a partir da China, na última quarta-feira, é a mais recente confirmação do caráter global e refinado das operações mafiosas e da referência do Brasil como núcleo relevante de negócios. Na prática, é uma reedição da holding Alleanza di Secondigliano S.A., que a Camorra manteve na década passada, até ser descoberta pela polícia de Nápoles. A Alleanza ocultava empresas dedicadas ao comércio de produtos falsificados, de eletrodomésticos a roupas.

A diferença entre o negócio anterior e o atual está no aprimoramento dos produtos e da engenharia de lavagem de dinheiro. As falsificações dos anos 2000 eram facilmente identificáveis, conta Francesco Forgione: um aspirador da marca italiana "Folleto" saía da fábrica clandestina com um "l" a menos, e nas máquinas fotográficas "Canon" sempre faltava um "n".

Mudou bastante. Nos armazéns espanhóis abarrotados de ferramentas apreendidas esta semana é quase impossível a distinção entre o original americano ou europeu da cópia chinesa vendida a empresas do Brasil, entre outras.