Lojas, lancherias, postos, táxis e edifício: o poder econômico das facções no RS

Para fazer o dinheiro da venda de drogas circular e ter aparência de lícito, traficantes investem em longa e variada lista de negócios pelo Estado


Uma família está passeando. Decide lanchar e escolhe um estabelecimento tradicional da cidade, que integra a rede de lanchonetes Skillus. Enquanto o evento familiar ocorre no salão principal, nos fundos, criminosos se reúnem para negociar armas, drogas e carros roubados.

Mas não estão naquele local por acaso. Eles fazem parte do negócio, atuam nas lanchonetes, se travestem de funcionários, circulam armados e usam a rede para lavar dinheiro do tráfico de drogas.

Em Porto Alegre, badalando oferecer o melhor sushi da cidade e festas com atrações de alto padrão, com público semanal estimado de 2,5 mil pessoas, uma casa noturna foi inaugurada em 2014 na Arena do Grêmio. Por quase dois anos, foi palco de atrações e festas de peso. Para a polícia, em meio à diversão, traficantes faziam reuniões de negócios no local, que tinha como sócio um dos principais distribuidores de drogas do Estado, Juliano Biron da Silva.

Junto a lançamentos de artistas de funk, outro traficante da Capital fez fortuna, organizando festas e shows com uma produtora de eventos, a Nível A. Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, circulava em carros de luxo e com seguranças ostentando perfil de empresário da música. Criminosos, líderes de violentas facções, com pequenos negócios antes restritos à periferia, alçaram voo e estão em rápida expansão.

— Temos de sair das vilas — comentou ao telefone o integrante de uma facção em escuta de autoridades.

São lancherias, restaurantes, casas noturnas, produtoras, revendas de carros, transportadoras, estacionamentos, salas comerciais, mercados, lojas de roupas, prédio residencial, açougues, táxis e até posto de combustível. É longa e variada a lista dos negócios em que traficantes têm investido o dinheiro da venda de drogas com a finalidade de fazê-lo circular e ter aparência de lícito.

O reflexo direto à população é de perigo iminente. Uma família que tenha passado pelo salão principal de uma das lancherias Skillus nem suspeitou do que podia ocorrer naquele ambiente de descontração se adversários no crime decidissem se enfrentar a tiros. Quem dança em uma casa noturna também não. Ou entra em um táxi ou vai abastecer em um posto.

O principal negócio desses novos “empresários” é a violência na disputa por mais poder. Tanto que Xandi morreu executado a tiros de fuzil em uma casa de luxo em Tramandaí, no Litoral Norte, enquanto desfrutava feriado de fim de ano como se fosse veranista comum.

Além dos negócios que conduzem diretamente, há atividades que esses criminosos apenas exploram, cobrando “pedágio” para permitir o funcionamento. Esse tipo de extorsão ocorre, por exemplo, com o jogo de azar, com agências lotéricas, com pequenos comércios em vilas, com a prostituição e até em relação a serviços essenciais, como fornecimento de gás e entrega de correspondências, conforme já descoberto pela Polícia Civil no bairro Restinga.

O avanço das atividades financeiras gerenciadas pelas facções se tornou novo desafio às autoridades, até então organizadas para combater crimes como tráfico de drogas e homicídios. Diante deste cenário, Polícia Civil e Ministério Público criaram, a partir de 2015, delegacias e setores destinados a esmiuçar a lavagem de dinheiro que ampara essas organizações criminosas.

Desde então, trabalhos conjuntos da Polícia Civil e da Promotoria Especializada no Combate aos Crimes de Lavagem de Dinheiro e Organização Criminosa resultaram na investigação de 216 pessoas ligadas a cinco diferentes facções, na denúncia de 156 suspeitos e na condenação de 18 pessoas. Também foram investigadas 72 empresas, apreendidos 89 carros e sequestrados 61 imóveis. Os valores bloqueados são de R$ 29 milhões.

Desde janeiro do ano passado, a Delegacia de Polícia de Repressão ao Crime de Lavagem de Dinheiro do Gabinete de Inteligência da Polícia Civil fez quatro grandes ações contra grupos criminosos, apreendendo carros e bloqueando imóveis e valores.

De clínica estética até artefatos de cimento
O número de empresas investigadas revela que, se a lista dos ramos em que criminosos têm atuado é longa, a de tipos de empresas usadas para simplesmente passar o dinheiro sujo é ilimitada e se espalha Brasil afora: transporte rodoviário, atacadistas de calçados, móveis e decoração, produtos alimentícios, clínica estética, oficina mecânica, fabricação de artefatos de cimento, varejo de artigos elétricos, comércio de produtos farmacêuticos, vestuário, agências de viagem e equipamentos de telefonia são exemplos.

Esses estabelecimentos ganham comissão, ou corretagem, sobre os valores que deixam passar por suas contas. E ajudam a formar a grande rede que conta com pessoas acima de qualquer suspeita para fazer deslanchar os negócios criminosos.

São “colaboradores”, comerciantes ou empresários e gente com conhecimento como contadores, investidores ou até mesmo estudantes que sirvam para, simplesmente, guardar arsenal de armas. É como se a expansão das facções em atividades econômicas fosse uma onda que abocanha prestadores de serviço que agem à força, subjugados pela violência, especialmente nas vilas, ou que participam de forma espontânea e visando ao lucro, como PMs de dois batalhões investigados por trabalhar para facções na Capital e um vereador suspeito de agir para outra organização, no Vale do Sinos. São os tentáculos do crime do outro lado da rua.