Líder de quadrilha de tráfico internacional de drogas é preso em Bauru


Bauru foi o ponto final da trajetória criminosa de um homem que liderava uma quadrilha de tráfico internacional de drogas com atuação em seis estados do País. Procurado pela Interpol e classificado como sendo de alta periculosidade, o traficante, um sérvio radicado no Brasil, foi preso em casa, na zona sul da cidade, logo nas primeiras horas da manhã do último domingo.

A ação, entretanto, só foi divulgada ontem, quando a Polícia Federal (PF) desencadeou a Operação Niva, que resultou na prisão de outras 17 pessoas do bando. O líder, que não teve o nome divulgado, foi detido no fim de semana na residência que mantinha na quadra 14 da rua Doutor Fuas de Mattos Sabino, em cumprimento a mandado de prisão para extradição requerido pelo governo sérvio.

De acordo com o coordenador da operação em Bauru, o delegado Antônio Vaz de Oliveira, o homem estava acompanhado de sua mulher, uma brasileira, e não teria oferecido resistência à prisão. Na casa, foram apreendidos seis televisores de plasma, documentos e 18 obras de arte ainda não avaliadas, que suspeita-se terem sido adquiridos com dinheiro do tráfico. No local, não foram encontradas armas ou entorpecentes.

“A casa possuía pouca mobília, ainda estava sendo decorada, mas não é possível dizer que ele tinha planos de morar no endereço e passar a viver na cidade. Na residência da sogra dele, também em Bauru, foram apreendidas ainda duas motocicletas”, comenta Vaz, destacando que, apesar das evidências, não há confirmação de que a companheira do traficante fosse bauruense. “O que soubemos é que ela fez faculdade na cidade”, completa.

O delegado Ivo Roberto Costa da Silva, coordenador geral da operação, informa que o traficante morou por muitos anos na cidade de São Paulo e permaneceu o último ano fora do País, quando houve a informação de que estaria em Bauru. “Mas, ao que sabemos, ele ainda não estava morando na cidade”, confirma.

Segundo informações da PF, o traficante preso seria um dos cinco homens mais procurados pela polícia sérvia e tinha o nome incluído na lista “vermelha” da Interpol, a polícia internacional. Por este motivo, deverá ser extraditado para seu país de origem dentro dos próximos dias.

Ainda de acordo com a PF, o homem também era dono de imóveis no Guarujá (litoral paulista) e São Paulo, bens que já tiveram o sequestro decretado. Para cometer os crimes sem ser flagrado, ele fazia uso de quatro documentos de identidade: dois da Sérvia, um do Brasil e um da Argentina, onde a quadrilha também atuava. Da mesma forma, outros membros do bando também usavam documentos falsos.

Assim como o líder, os presos serão indiciados por tráfico internacional de drogas, associação criminosa para o tráfico e financiamento da prática do crime de tráfico internacional de droga. As penas podem variar entre cinco e 15 anos de prisão.

Modo de "embarque" era sofisticado

A quadrilha desmantelada pela Polícia Federal, ontem, traficava exclusivamente cocaína e tinha uma estratégia sofisticada para embarcar a droga dos portos brasileiros para o continente europeu. Segundo o delegado Ivo Roberto Costa da Silva, coordenador geral da Operação Niva, o grupo agia de dois modos diferentes para efetivar o transporte.

No primeiro deles, utilizavam navios de carga ou de passageiros. Os criminosos cooptavam, no Exterior, tripulantes de navios que desembarcavam no Brasil. Esses tripulantes eram pagos para colocar a droga na embarcação e transportá-la. “As remessas eram transportadas em sacolas cujo peso variava entre 25 e 30 kg ou mesmo dentro das vestes destes tripulantes”, comenta.

No segundo modo, os tripulantes não precisavam desembarcar. Através de botes, os traficantes seguiam com a droga até a chamada área de fundeio (local onde a embarcação lança as âncoras e aguarda para atracar ou realizar o embarque ou desembarque de produtos).

Nessa modalidade, os tripulantes “pescavam” mochilas com as drogas – geralmente com carregamentos de 100kg a 200kg de cocaína. “Após um contato prévio com os traficantes, eles desciam uma corda e içavam essas mochilas até o navio. Essa logística dificultava um pouco o trabalho da polícia, porque eles usavam botes pequenos e difíceis de serem localizados em fiscalizações e também por serem cidadãos sérvios e terem uma certa facilidade em arregimentar os tripulantes”, detalha.

Ao todo, 48 do bando são presos

Ao longo de dois anos de investigações, a Polícia Federal (PF) prendeu 48 integrantes da quadrilha, sendo 17 somente ontem. Durante este período, também foram apreendidos 620 kg de cocaína, além de cerca de R$ 2 milhões. Além disso, a 4ª Vara Federal Criminal de São Paulo determinou o sequestro de bens de integrantes do bando, sendo 31 imóveis, 15 veículos de luxo e três embarcações, patrimônio avaliado em cerca de R$ 16 milhões.

Somente para a realização da Operação Niva, durante todo o dia de ontem, foram mobilizados 126 agentes federais em seis estados do País onde o grupo tinha forte atuação: São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Amazonas, Pará e Rondônia. Ao todo, foram cumpridos 60 mandados judiciais, sendo 28 de busca e apreensão e 32 de prisão temporária.

“Todos os membros que estavam vivendo no Brasil foram presos. Os que estão no Exterior também já estão com mandados de prisão expedidos e encaminhados à Interpol”, revela o delegado Ivo Roberto Costa da Silva, coordenador geral da operação.

De acordo com ele, o sucesso da operação se deve ao acordo de cooperação bilateral firmado entre o Brasil e a Sérvia em junho de 2010 e à eficiência da relação entre as polícias dos dois países. Também contou com a colaboração de autoridades dos Estados Unidos, Reino Unido e África do Sul.

O início das investigações deu-se em abril de 2009, após o alerta de organismos internacionais sobre a atuação da organização criminosa em várias cidades portuárias do Brasil, entre elas Santos, Paranaguá, Rio Grande, Vitória e cidades do Nordeste. Agora, após as prisões, a operação passará a tentar esclarecer se os suspeitos praticavam lavagem de dinheiro, segundo o delegado.

“Vamos apurar onde este dinheiro estava sendo investido dentro do Brasil. Parte deste trabalho, inclusive, já foi realizada com a apreensão de R$ 16 milhões em bens sequestrados que estavam em nome dos membros da quadrilha”, observa Silva.