Legislação liberal dificulta punições por lavagem de dinheiro


O procurador da República de Minas Gerais Rodrigo Leite Prado, que faz parte do grupo especializado em lavagem de dinheiro, concorda com a conclusão do Gafi em relação à liberalidade da legislação e critica a sacralização dos direito individuais. “Hoje, o direito penal deve proteger o cidadão em face de um suposto ‘estado policialesco’ em vez de proteger o cidadão contra a prática do crime ou punir condutas tipificadas em infrações penais”, afirma.

O procurador, que já atuou em casos como o escândalo do mensalão, condena a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de não permitir investigações a partir de denúncia anônima, como aconteceu com o caso da Camargo Corrêa, que teria destinado recursos a políticos. “Esse é um tipo de crime no qual dificilmente o informante terá coragem de se identificar, o que dificulta ainda mais as apurações”, lamenta o procurador.

Em relação aos investigados, Rodrigo Prado lembra que a legislação brasileira é tão benevolente que permite a eles atos impensados em outros países. “Aqui, os investigados têm o direito de mentir perante a Justiça, enquanto nos Estados Unidos o mesmo ato é considerado crime de perjúrio”, afirma, lembrando ainda que eles podem ter acesso a investigações sigilosas e até mesmo tumultuar o processo.

O que determina a lei:

Deveres do Ministério Público (autor da ação penal)

1 – Provar que o investigado tinha ciência de que os recursos eram de origem criminosa;

2 – Identificar e provar quais as funções dentro da organização criminosa desempenhadas por cada um dos investigados;

3 – Identificar qual a parte do dinheiro é suja, quando houver mistura de ativos lícitos e ilícitos;

4 – Fundamentar, diante da notícia de operação financeira suspeita, cada pedido de quebra de sigilo bancário;

5 – Produzir provas somente a partir de informações de autor devidamente identificado;

6 – Justificar, a cada 15 dias, as razões para o prosseguimento do monitoramento telefônico dos investigados;

7 – Recorrer apenas de alguns tipos de decisão;

8 – Enfrentar os problemas estruturais das agências de repressão e controle de lavagem de dinheiro (Polícia Federal, Justiça, Receita, Banco Central, entre outros) para evitar a prescrição dos crimes;

9 – Garantir ao investigado a defesa adequada.

Direitos do investigado

1 – Mentir para não fazer prova contra si (nos Estados Unidos, essa prática é considerada crime);

2 – Fugir sem ser punido posteriormente;

3 – Ter acesso a investigações sigilosas e aproveitar-se de vazamentos sigilosos;

4 – Produzir provas potencialmente protelatórias, como tumultuar o processo com a troca de advogados, a substituição de testemunhas, os pedidos de adiamento de audiências, entre outras;

5 – Interpor um número indefinido de habeas corpus em face de qualquer ato que prejudique seus interesses;

6 – Ser condenado a uma pena mínima e, caso contrário, o juiz é obrigado a justificar cada dia de acréscimo;

7 – Ter as penas de prisão inferiores a quatro anos substituídas por prestações pecuniárias ou serviços à comunidade;

8 – Ter progressão de regime a cada um sexto da pena.