Lavagem de dinheiro atinge até a casa de Sherlock Holmes

ONG investiga quem são os donos de imóveis de luxo


Londres, Reino Unido. Sherlock Holmes nunca existiu. Mas, coincidência ou não, é exatamente no endereço onde estaria a casa deste personagem britânico por excelência que está um dos maiores mistérios recentes de Londres. Se o detetive que desde 1897 ocupa lugar de destaque no imaginário coletivo é pura ficção, e, portanto, não tem como ter deixado herdeiros, a quem pertenceria o quarteirão onde supostamente estaria Baker Street, 221B, o célebre QG de Holmes nas histórias do escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle?

O certo é que ninguém sabe dizer exatamente quem é o proprietário do quarteirão que vale 174 milhões de libras (cerca de R$ 795 milhões) e inclui vários imóveis. De acordo com denúncia realizada pela Global Witness em um longo relatório entregue ao gabinete do primeiro-ministro David Cameron, os imóveis pertenceriam, por caminhos tortuosos, a Rakhat Aliyev, ex-chefe da polícia secreta do Cazaquistão e enteado do presidente daquele país.

O vínculo foi levantado pela ONG durante as investigações para saber quem são os verdadeiros donos de 3.000 imóveis em áreas de luxo da capital britânica.

“As leis acabam protegendo as identidades dessas pessoas, que encobrem dinheiro de origem duvidosa. Hoje, Londres é uma das capitais da lavagem de dinheiro no mundo”, disse uma das coordenadoras do estudo da Global Witness, Chido Dunn. Segundo a ativista, 80% dos imóveis que estão sendo investigados pela ONG têm seus proprietários baseados em paraísos fiscais.

Em discurso recente em Cingapura, Cameron garantiu que apertaria as leis para evitar que dinheiro sujo entrasse no país por meio de investimentos em imóveis. Para a Global Witness, esses recursos bilionários não apenas se escondem no país, como têm inflado o mercado imobiliário de tal maneira que vem expulsando os londrinos para algumas áreas mais afastadas.

Dunn afirmou que o governo já está debruçado sobre os dados do relatório da ONG, citada nominalmente pelo premiê, e promete apurar as irregularidades. Até o fim do ano, deve entrar em vigor uma lei que prevê divulgar quem são os proprietários britânicos por trás dos imóveis no país. A ideia é estender a abrangência aos grupos estrangeiros.

“Há muitos nomes da Rússia, Nigéria e África em geral, além da Ásia Central”, explica. A ONG não encontrou nomes de brasileiros nesta lista inicial. Segundo Dunn, estes últimos podem procurar os mercados de Miami e Nova York, por exemplo, até pela proximidade com o país.

A Global Witness está certa de que Rakhat Aliyev era o verdadeiro dono dos imóveis de Baker Street. Os advogados das empresas proprietárias negam qualquer ligação com o cazaque, segundo a mídia britânica. Ele foi encontrado morto em fevereiro deste ano em uma prisão na Áustria, onde aguardava julgamento pelo assassinato de dois banqueiros em seu país.

Ficção

Dúvida. O número da casa de Holmes não existe na vida real. Mas convencionou-se instalá-lo em uma das portas do quarteirão londrino, onde funciona hoje o museu do detetive. A dúvida é se 221B deveria ficar ali de fato.