Jogo do bicho tinha a participação de policiais e milhões em propina, diz MP

Esquema na Baixada Santista movimentou mais de R$ 80 milhões. Ministério Público está recorrendo e pediu a prisão dos envolvidos.


O Ministerio Público denunciou o envolvimento de policiais no jogo do bicho na Baixada Santista, no litoral de São Paulo. Segundo o Ministério Público, o esquema movimentou mais de R$ 80 milhões em um ano e meio, sendo R$ 3 milhões de reais de propina. O Ministério Público ofereceu a denúncia e pediu a prisão dos envolvidos ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. A Justiça ainda está analisando o caso.

De acordo com o MP, Carlos Virtuoso é bicheiro e comanda, desde dezembro de 2007, uma organização criminosa que explora o jogo do bicho. O grupo teria mais de 200 pontos de apostas, 148 em São Vicente, 46 em Santos e 23 em Praia Grande. De acordo com os promotores, o esquema na Baixada Santista só foi possível porque alguns policiais civis receberam dinheiro para não revelar o esquema e ex-policiais militares fizeram toda a segurança para o grupo.

Apreensões

A quadrilha, segundo os promotores, tem um organograma com cinco núcleos. Um operacional, que faz os jogos. Outro da segurança, que faz o recolhimento do dinheiro e é formado por ex-policiais militares. Há também o núcleo policial, que é aquele que recebe a propina para apoiar o crime e que é formado por policiais civis. O núcleo gerencial é o que faz o pagamento para os policiais. Já o da lavagem de dinheiro trata de dar a aparência lícita aos valores arrecadados ilegalmente. Tudo seria centralizado na base de operações na Rua Batista Pereira, em Santos.

Segundo o Ministério Público, só no mês de maio deste ano, passaram pela central R$ 4,1 milhões. O dinheiro teria sido arrecadado com o jogo do bicho. A quadrilha movimentou entre outubro de 2011 e maio de 2013, mais de R$ 80 milhões.

"O que a investigação constatou é que todos os policiais que iam receber dinheiro ocupavam cargos de chefia", diz o promotor Silvio Loubeh, que afirma que o jogo do bicho é ilegal e que quem o promove é contraventor. "Isso, ao nosso entender, cria até um constrangimento para os demais policiais que trabalham sob a chefia dessas pessoas. Fica difícil de acreditar que um policial vai combater esse tipo de jogo quando o chefe dele está recebendo o dinheiro", disse ele.

Escutas

O grupo de Atuação Especial do Ministério Público monitorou por cinco meses a quadrilha de Carlinhos Virtuoso. Com autorização da justiça, os promotores gravaram as conversas de cinco policiais civis e um assessor do bicheiro, Adilson Vieira. Os promotores analisaram centenas de conversas. Em uma delas, Agostinho Pereira, chefe dos investigadores do 7º DP de São Vicente, conversa com Adilson Vieira. Eles marcam um encontro.

Adilson Vieira: – Fala, meu irmãozinho!
Agostinho Pereira: – Ô, meu irmãozinho… daqui a cinco minutos eu to na igreja.
Adilson Vieira: – Tá legal!

Em todos os encontros, os policiais vão embora com uma sacola preta. De acordo com o Ministério Público, é um saco cheio de dinheiro. Em outra conversa, o chefe dos investigadores do 7º Distrito Policial de Santos, Ademir Marques, também marca um encontro com o assessor do bicheiro Carlinhos Virtuoso. Neste caso, Adilson Vieira entregou um pacote preto dentro de um carro.

Adilson Vieira: – E aí? Tô na área!
Ademir Marques: – Então, eu tô saindo, é… Cinco minutinhos na esquina aí?
Adilson Vieira: – Ta feito…

Em uma outra conversa, Marcelo França, chefe dos investigadores do 5º Distrito Policial de Santos, está envolvido.

Marcelo França: – Opa, tô na esquina, tá?
Adilson Vieira: – Tá legal, já to indo lá.

Depois da conversa, eles se encontraram em uma esquina e o policiail recebeu uma sacola preta.

Segundo o MP, Wilson Augusto Júnior, que tem cargo de chefia na delegacia da Infância e Juventude de Santos, e Jorge Gomes dos Santos, chefe dos investigadores da Delegacia do Idoso também agiram da mesma forma.

Ainda de acordo com a investigação do MP, os pagamentos eram feitos sempre em dinheiro, duas vezes por mês. A primeira, entre os dias 13 e 17 e a segunda entre os dias 27 e 31. Todos os policiais tinham a obrigação de passar o dinheiro para outros agentes, todos integrantes da Polícia Civil do Estado de São Paulo.

Na central da quadrilha, o Ministério Público encontrou R$ 320 mil em dinheiro e planilhas que, segundo os promotores, mostram como era a divisão dos valores. Apenas na primeira quinzena deste ano, por exemplo, o policial Ademir Mira Marques ganhou quase R$ 35 mil, distribuídos da seguinte forma: R$ 16 mil para a Deinter, o Departamento da Polícia da Baixada Santista, R$12.500 mil para a Seccional, que é uma delegacia regional. O próprio Ademir, chefe dos investigadores do 7º DP, ficou com R$ 1 mil. Nas contas do MP, em um ano e meio, os policiais civis embolsaram R$ 2.659.540 milhões em propinas. Carlinhos Virtuoso arrecadou, no mesmo período, R$ 80 milhões com o jogo do bicho.

Carlinhos Virtuoso e os policiais civis foram ouvidos pelos promotores e se defenderam das acusações. Segundo o MP, todos os policiais negaram envolvimento com o jogo do bicho e explicaram o que tinha dentro dos sacos pretos. Já Carlinhos Virtuoso disse que assumiu a banca do jogo do bicho do pai dele, mas que deixou a contravenção depois da investigação do Ministério Público. Ele também afirmou que o lucro com o jogo do bicho é baixo e que todos os bens dele são herança e foram comprados com o dinheiro de atividades lícitas.

O policial Wilson Augusto Jr., da Delegacia de Infância e Juventude de Santos, disse que foi ao encontro do assessor do bicheiro para buscar ração para gatos. O investigador Marcelo França, que trabalha há 20 anos na Baixada Santista, afirmou que nas sacolas pretas havia artigos ligados ao espiritismo. Agostinho Pereira, da Delegacia de São Vicente disse que, quando flagrado pelos promotores, estava comprando whisky e perfume. Já Jorge Gomes dos Santos, da Delegacia de Proteção ao Idoso, relatou que nos sacos pretos havia chá para tratar de artrose. Ademir Marques, chefe dos investigadores do 7º Distrito Policial de Santos ficou calado quando os promotores perguntaram o que tinha dentro do saco preto.

Já os outros quatro policiais civis, citados nas denúncias, disseram que não conhecem o bicheiro Carlinhos Virtuoso e que nos sacos pretos não havia dinheiro. Armando de Mattos Júnior, advogado do policial Marcelo Cardoso, disse que não existem provas para uma ação penal e que a denúncia do Ministério Público é baseada em deduções.

O Ministério Público ofereceu a denúncia e a justiça está analisando o caso. Os promotores pediram a suspensão de porte de arma dos ex-policiais militares que faziam toda a segurança e a prisão de oito pessoas envolvidas neste caso. A justiça negou esses dois pedidos. O juiz da comarca de Santos, Valter Esteves, disse que os acusados não oferecem risco e não precisam ser presos mas ele decretou a apreensão de todos os bens em nome de Carlinhos Virtuoso e em nome de funcionários do bixeiro.

Enquanto a justiça analisa se aceita a denúncia do MP, os endereços onde funcionam o jogo do bicho em Santos, continuam funcionando. Em um bar na Rua Joaquim Távora, as apostas são livres. Os cambistas informam o horário do sorteio do próximo jogo. “O sorteio é 14h30 mas 15h já está aí o resultado,” disse um deles. Em outro ponto de aposta, na rua Luis Suplici na esquina com a avenida Ana Costa, o ponto funciona normalmente próximo a uma banca. No imóvel considerado pelo MP como a central do esquema, uma funcionária disse que no endereço funciona uma casa de eventos e que Carlinhos Virtuoso estava viajando.

O Ministério Público está recorrendo e pediu a prisão dos envolvidos ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. A acusação, inclusive contra os policiais, é de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e crimes contra a ordem tributária.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública disse que os policiais civis acusados de envolvimento com o jogo do bicho também são investigados pela 6ª Corregedoria Auxiliar de Santos. Os policiais respondem a processo administrativo, que poderá resultar em demissão. A Secretaria de Segurança disse ainda que a Corregedoria já pediu o afastamento preventivo dos policiais e o recolhimento da carteira funcional, do distintivo e armas deles. Mas, foi apenas um pedido, já que os policiais continuam trabalhando. E, quanto à denúncia de que o dinheiro era distribuído nas delegacias da Baixada Santista, nada foi dito. A Secretaria de Segurança também informou que, quanto aos policiais militares reformados, a Polícia Militar vai tomar as medidas disciplinares necessárias.