Investigada na Lava Jato, Estre omite informações para acionistas

Internamente, empresa admite afastamento de suspeitos, mas não cita ato para o mercado. Estre controla a Cavo, que quer coletar lixo no DF


Investigada na Operação Descarte, um desdobramento da Lava Jato, a Estre Ambiental criou uma estratégia de comunicação a fim de minimizar desgastes na imagem perante o mercado externo. A empresa produziu dois comunicados diferentes para falar sobre suspeita de irregularidades dentro da corporação.

Para funcionários, em uma carta interna, informou, de forma explícita, o afastamento de diretores e de um executivo. No entanto, em documento destinado ao mercado, omitiu as providências tomadas após a ação da Polícia Federal que apura um possível esquema de lavagem de dinheiro.

A Estre lidera o consórcio Soma, que tem entre seus consorciados tem a empresa Cavo Serviços e Saneamento, com 82% de participação. Esta última tenta, desde outubro do ano passado, abocanhar o contrato de coleta do lixo no DF. A empresa ingressou com ação na Justiça e representação no Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) para tentar evitar que a concorrente Sustentare continuasse a operação no DF.

No documento Notice to the Market, em inglês, a Estre informou a acionistas e investidores que “a Polícia Federal brasileira executou mandados de busca e apreensão em diversas empresas nas cidades de São Paulo, Santos, Paulínia, Belo Horizonte e Lamim, incluindo o Consórcio Soma – Soluções em Meio Ambiente, e o escritório matriz da Estre”. Depois disso, disse estar “totalmente comprometida com os mais altos padrões de comportamento ético” e assegurou cooperar plenamente com as autoridades competentes.

Já no comunicado interno, publicado no mesmo dia, a empresa fez uma série de detalhamentos ocultados do documento enviado ao mercado. Em 1º de março, mesmo dia em que foi deflagrada a Operação Descarte, o CEO do Grupo Estre, Sergio Pedreiro, assinou uma carta.
No texto, relatou que, “de acordo com a diretriz de tolerância zero para condutas em desacordo com a política de integridade da Estre, a companhia decidiu afastar o diretor da área de coleta e limpeza urbana, André Meira, e o Gerente Financeiro do Consórcio Soma, Tercio Correia”.

O documento ainda diz que a Estre decidiu “suspender qualquer comunicação ou interação de sets executivos e profissionais com Wilson Quintella Filho”, em referência ao ex-diretor-presidente da Estre Ambiental. Quintella Filho, que era responsável pela administração da empresa, foi citado em delação premiada do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa.

As investigações da PF no âmbito da Operação Descarte apuram um possível esquema de lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada. Auditores da Receita Federal e policiais dizem que o Consórcio Soma teria usado bonés, uniformes, sacos de lixo, detergentes e outros produtos para lavar R$ 200 milhões em notas frias.

Procurada pelo Metrópoles, a Estre não comentou a razão de os informes serem diferentes. No entanto, afirmou, “por meio de nota, que instalou procedimento de auditoria com o objetivo de identificar possíveis falhas nos controles internos da companhia que tenham originado falta de recolhimento de impostos. A empresa ressalta que não há presunção de responsabilidade prévia dos gestores. A Estre reitera que colabora com a Receita Federal, fornecendo todas as informações disponíveis”.

No DF

Nesta semana, a Cavo renovou as esperanças de comandar a coleta de lixo no Distrito Federal. Decisão do TCDF atestou que houve irregularidades no processo de dispensa de licitação conduzido pelo Serviço de Limpeza Urbana do DF (SLU).

Depois dos argumentos do relator do processo, conselheiro Inácio Magalhães, de que o contrato emergencial feria a Lei nº 8.666/93, ficou decidido em plenário: as propostas da Sustentare e da Cavo deveriam voltar à fase de instrução, que consiste na análise do SLU.

A Cavo havia sido declarada vencedora na licitação feita pelo SLU em 2017. Apesar da vitória, foi impedida de assumir o serviço de coleta e transporte do lixo na capital do país, devido a um relatório da Procuradoria Jurídica do SLU.

Durante o processo de escolha das empresas, a Cavo cobrou R$ 15.204.735,78 mensais para prestar o serviço por seis meses. O valor de cada parcela era quase R$ 2 milhões menor do que o orçamento apresentado pela Sustentare: R$ 17.131.497,50.

A Cavo chegou a receber correspondência do SLU pedindo-lhe que ratificasse sua proposta, apresentasse documentos e indicasse o responsável para a assinatura do contrato. Mas um novo parecer, feito a pedido da Procuradoria Jurídica da entidade, supostamente na véspera da assinatura da contratação emergencial, mudou radicalmente a primeira orientação emitida pelo setor técnico do órgão.

Usina de compostagem

Em nova análise e sem haver impugnação por parte da empresa derrotada, o SLU mudou seu entendimento e concluiu que a Cavo não tinha mais qualificação técnica para operar a usina de compostagem da Asa Sul – serviço correspondente a apenas 2,64% do contrato. Em números absolutos: R$ 2,7 milhões.

A quantia equivale a todo o valor empregado durante seis meses para a operação da usina de triagem e de compostagem na Asa Sul. Nesse lugar, o lixo comum segue por esteiras, nas quais catadores e eletroímãs separam os restos sólidos dos resíduos biológicos. O que sobra de material orgânico passa por peneiras para depois virar adubo orgânico. O rejeito segue para o aterro.

Embora corresponda a uma pequena fatia do escopo do contrato – que inclui varrição de ruas, pintura de meios-fios, lavagem de monumentos, limpeza das passagens subterrâneas e dos pontos de ônibus –, foi por causa desse item que o SLU desistiu de contratar a empresa mais competitiva, deixando de fazer economia milionária.