Investigação antimáfia da Itália ligou procurador da Winfil à lavagem de dinheiro do tráfico

Em 1998, ministro do STF emitiu ordem de prisão e extradição contra François Filippeddu, que residia no Brasil e permaneceu foragido até 2001, quando foi absolvido por tribunal italiano


Proprietária da casa de jogos Winfil, em Porto Alegre, a família Filippeddu não é novata no Brasil: já atuou e residiu no país nos anos 1990. O carro-chefe dos negócios eram máquinas caça-níquel, como as da Winfil. Uma apuração iniciada em novembro de 1996 pela Divisão de Investigação Antimáfia de Roma ajuda a remontar os fatos.

Em 29 de setembro de 1998, um ofício redigido pelo Ministério da Justiça da Itália foi enviado ao Brasil, via fax, pela sede da Interpol em Roma. Era o pedido formal de prisão para extradição (PPE-332) do francês François Filippeddu. A carta listava as motivações: autoridades do país europeu haviam iniciado investigação sobre uma célula mafiosa, a Banda della Magliana, acusada de traficar cocaína da Colômbia para revender na Europa. No curso da apuração, os criminosos teriam negociado 900 quilos de pó somente em 1997. O lucro do esquema era lavado em atividades diversas. O jogo de azar era uma delas. “Nesse contexto, François Filippeddu é acusado de associar-se com muitas outras pessoas pela comissão de vários delitos”, diz o documento da Interpol.

A Itália ainda informou que François poderia ser detido na sede da Nevada, em São Paulo, uma das empresas supostamente usadas por mafiosos para distribuir máquinas caça-níquel pelo Brasil. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) e, em 23 de outubro de 1998, baseado no tratado de extradição entre Brasil e Itália, o então ministro Octavio Gallotti emitiu a ordem de prisão de François.

A Polícia Federal cumpriu diligências para encontrá-lo em 20 de novembro do mesmo ano, mas o francês não foi localizado. Ele estava, naquele momento, foragido. Assim era citado nos autos do Tribunal Ordinário de Roma. “Em decorrência do nome do estrangeiro encontrar-se no Sistema Nacional de Procurados e Impedidos, poderá ser preso em qualquer momento no território brasileiro”, registrou a PF, após fracassada tentativa de detenção.

Um dos trunfos da investigação de Roma foi a delação premiada de Lillo Lauricella, italiano que era um dos chefes da organização no Brasil. Ele atendia diretamente às ordens de Fausto Pellegrinetti, capo da Banda della Magliana, preso em janeiro de 2018 em Alicante, na Espanha, aos 76 anos, depois de mais de 15 anos vivendo às escondidas, com identidades falsas.

A delação de Lauricella, reproduzida em trechos no relatório final da CPI dos Bingos realizada no Brasil, em 2004, explica como as máquinas caça-níquel se espalharam por São Paulo e Rio mediante pagamento de propina aos barões do jogo do bicho. O delator também descreveu o papel dos Filippeddu na engrenagem. “Nos interrogatórios, o colaborador Lauricella contou ao juiz instrutor italiano que permanecia no Brasil enquanto Pellegrinetti mantinha-se na Itália. Por vezes, Lauricella recebia o auxílio dos irmãos Filippeddu”, diz trecho do relatório da CPI dos Bingos. O documento ainda transcreve partes das declarações formais de Lauricella: “Começamos do Brasil porque havia Ortiz (família relacionada com a máfia italiana), que era o mais forte, isto é, ele que operava a partir do Brasil com Filippeddu”, delatou Lauricella, assassinado a tiros na Venezuela em 2002.

Quando citava “os Filippeddu”, ele se referia a François e a um terceiro irmão da família, Julien, este de nacionalidade italiana e não participante do investimento na Winfil, em Porto Alegre.

A sentença do Tribunal Ordinário de Roma saiu em 9 de março de 2001. Entre muitas condenações, como a de Pellegrinetti, François e Julien foram absolvidos. Para o juízo de Roma, eles contribuíram para lavar o dinheiro do tráfico ao atuar “habilidosamente” no mercado brasileiro de caça-níqueis, mas a sentença cita que não havia provas de que eles sabiam da origem ilícita dos capitais. Também é informado que os contatos mapeados pela investigação entre os Filippeddu, Lauricella e a organização de Pellegrinetti teriam ocorrido em 1997, mas as remessas de cocaína investigadas aconteceram em 1996.

Foragido havia quase três anos à época do veredicto, François reapareceu em julho de 2001, quando seus advogados, munidos da decisão favorável ao cliente, foram ao STF pedir a revogação da prisão para extradição, que seguia em vigor no Brasil. Vencidos entraves burocráticos, incluindo uma consulta ao governo italiano, a então ministra Ellen Gracie determinou a expedição do alvará de soltura em 14 de dezembro de 2001. Sem ter sido preso, François estava livre.