Escândalo financeiro: Bank of Canada fecha portas às pressas no Brasil

Justiça de SP intima presidente; polícias federais da Argentina e Uruguai no caso


Um escândalo de proporções maiúsculas corre por sobre o mercado financeiro, como um rio secreto: a justiça paulistana apura o fechamento, as pressas, do RBC, Royal Bank of Canada. O presidente do RBC no Brasil, Giovanni Catizzone, foi intimado, no último dia 4 de setembro, a prestar depoimento ao Foro Cível de São Paulo.

O RBC Brasil é um dos braços latinos do Royal Bank of Canada, maior instituição financeira daquele país. O banco está no Brasil desde 1919. E em 2009 passou a se ocupar da gestão de fortunas.

Intempestivamente, o banco anunciou seu fechamento no Brasil com data marcada: 31 de outubro. E os clientes no Brasil tiveram o prazo de apenas um dia para retirar todo o seu dinheiro do banco, inclusive e sobretudo o de aplicações para resgate em dez anos –o que poderia, matematicamente falando, corroer em até 30% os montantes aplicados.

O caso tem um precedente com nosso vizinho, o Uruguai. No ano passado a polícia federal uruguaia invadiu a sede do Royal Bank of Canada: e confiscou todos os computadores e celulares de funcionários.

Tudo começou em junho de 2013: a pedido de um juiz argentino, que investigava suposta lavagem de dinheiro sobre a venda de jogadores de futebol para a Europa, uma magistrada uruguaia, Adriana de los Santos, ordenou a invasão do Royal Bank of Canada. Policiais do tesouro argentino participaram da operação no Uruguai.

Em agosto de 2013 o vice-presidente uruguaio, Danilo Astori manifestou preocupação com o fato de que o Royal Bank of Canada tenha sido invadido:

“Não é uma coisa boa para o Uruguai que um banco de tal relevância deva abandonar o país…o ataque poderia ter sido feito de uma forma mais cuidadosa e processual”, disse Astori —um economista por formação e que no governo anterior foi ministro da Fazenda.

O caso divide ainda o governo uruguaio. Homero Guerrero, Secretário do Executivo, o homem que tem contato permanente com o presidente Mujica, afirmou que o fato de o Royal Bank of Canada estar deixando o país “tem uma repercussão positiva para o Uruguai”:  porque seria a prova da existência de controles financeiros naquele país. “Mostra que o Uruguai se adaptou aos novos regulamentos sobre lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo “, disse Homero Guerrero.

No Brasil: prejuízo a correntistas e depoimento marcado

A partir do caso uruguaio, o Royal Bank of Canada resolveu deixar o Brasil. Até porque, este blog apurou, a Polícia Federal do Brasil já cruzou dados com a uruguaia.

Aqui no Brasil o Royal Bank of Canada administra R$ 1,2 bilhão de famílias de alta renda. E são estas pessoas que estão sendo lesadas com o fechamento.

Este blog conversou com cinco correntistas que se dizem lesados. Suas histórias referem o seguinte, em resumo:

—O Royal Bank of Canada lhes deu prazo de apenas um dia para retirarem do banco todas as suas aplicações.

—Se não retirassem as somas aplicadas, em um dia, corriam o risco de serem liquidados com taxas de mercado (as chamadas “quem dá mais no balcão”) .

—O pedido de retirada proposto pelo Royal Bank of Canada não levava em consideração os aspectos tributários, como prazos que diminuem a incidência da alíquota do Imposto de Renda.

—Os debêntures que tivessem liquidez seriam portanto liquidados dez anos antes do vencimento  —com deflatores que queimariam em 30% as economias dos clientes.

Clientes com quem este blog conversou alegam que, como manda a lei, as conversas com os gerentes eram gravadas. E que o Royal Bank of Canada se negou a fornecer tais fitas.

Mas a Justiça Civil de São Paulo fixou que o Royal Bank of Canada tem de fornecer as fitas.

O presidente do Royal Bank of Canada no Brasil, Giovanni Catizzone, foi intimado a comparecer em juízo no próximo dia 23 de setembro.

“O que mais me enoja é que sugeriram que eu mantivesse o dinheiro aplicado com eles, lá no Canadá, onde obviamente eu não conheço ninguém e cujo mercado financeiro eu desconheço”, declarou a este blog um correntista desesperado.