Empresa chinesa com atuação no Brasil operou golpe internacional


A empresa chinesa Sustainable Forest Holdings Limited (Susfor) – listada na Bolsa de Valores de Hong-Kong sob o código HKX:723 ou HKX:723-OL – lucrou muito com a venda de ações na Bolsa de Valores de Hong-Kong no final de 2009 e início de 2010. As ações do grupo tiveram um aumento substancial, mas a partir da divulgação de informações falsas sobre contratos com as usinas hidrelétricas do Rio Madeira, em Porto Velho, Rondônia.

Em novembro de 2009 a Susfor divulgou ao mercado financeiro chinês que acabara de firmar um grande contrato de supressão vegetal e aquisição de toda a madeira que seria retirada da área do reservatório das usinas de Rondônia. Segundo comunicado enviado inclusive para a Bolsa de Valores de Hong-Kong, o contrato dava direito à Susfor colher e ficar com a madeira da floresta existente em uma área de mais de 200 mil hectares, o que daria cerca de 45 milhões de metros cúbicos de madeira.

As informações são duplamente falsas. Primeiro, a quantidade de madeira existente nas duas usinas não supera os dez milhões de metros cúbicos, menos de 25% do anunciado pelo grupo chinês. Segundo: os contratos entre a Susfor e as empresas responsáveis pelas usinas não existiam. Naquele momento, uma empresa do Brasil, a VP Construtora, estava ainda em negociação com as usinas para a aquisição da madeira e apenas havia procurado a Susfor para oferecer esta madeira que seria retirada pela VP das áreas das usinas.

Mas as informações falsas fizeram efeito na Bolsa de Valores de Hong-Kong e as ações da empresa subiram, dando início ao processo de venda de ações e lucro de milhões de dólares dos controladores da Susfor, a partir de informações falsas. O aumento dos valores das ações se dá exatamente no momento em que a empresa anuncia o contrato inexistente no Brasil.

Mas a fraude não parou por ai. Em abril de 2010, as ações continuaram subindo porque a empresa realizou um grande seminário em Hong-Kong, onde anunciou para investidores do mercado financeiro o seu mega-contrato fantasma. Mais uma vez, a Susfor disse que já tinha o contrato e que já estava começando a colheita da madeira, ou a supressão da área.

O grupo anunciou também que os seus resultados financeiros tiveram grande melhora a partir da operação em Rondônia, saindo da situação de prejuízo e obtendo um lucro de mais de 180 milhões de dólares de Hong-Kong (mais de 40 milhões de reais). A informação consta nos balanços trimestrais e do anual feito pela empresa e apresentado ao mercado. Este balanço se demonstra também uma fraude, já que não existia, naquele momento, nenhuma operação da Susfor em Rondônia.

O grupo comprou somente em junho de 2010 a empresa VP, portanto somente a partir desta data poderia anunciar tal contrato, mas o que aconteceu depois disso foi de dar inveja a qualquer grande fraudador. A empresa fez um contrato de aquisição da VP, mas não pagou pela empresa nem a transferiu para o seu nome, ficando os contratos todos em nome de VP e esta sendo uma empresa praticamente sem dono. A Susfor fez contas de mais de um milhão de reais em nome da VP e não pagou, deixando a empresa com cadastro negativo nos órgãos de proteção ao crédito.

A Susfor continuou mentido ao mercado. Em um comunicado o grupo diz que aumentou a lucratividade graças a sua eficiência em Rondônia, otimizando o processo de supressão da madeira, reduzindo os custos com empreiteiras contratadas para retirar a madeira. No entanto, as empresas que estavam retirando a madeira estavam contratadas pelas usinas, e não pela Susfor, que não se preocupou nem em transferir a VP para o seu nome para que pudesse ser realmente a detentora dos contratos de aquisição da madeira.

O mais curioso é que após a alta das ações, período em que houve volume grande de venda, a Susfor anunciou, em agosto de 2010, a recompra de um lote grande de ações, que já estavam com um valor menor. A empresa divulgou informações falsas no mercado, fazendo os preços das ações subirem. A empresa realizou venda de ações com o preço elevado e depois recomprou a um preço inferior, obtendo altos lucros na operação.

Dono do grupo usa laranjas para administrar a empresa

Quem mais lucrou com a operação fraudulenta foi o controlador da Susfor, o chinês que mora em Nova York e que se apresenta no Brasil como Matthew Yip, mas cujo nome oficial que consta em seu passaporte é Wip Matthew Kan Kuen. Nascido em Honk Kong, Matthew já se meteu em outros escândalos e chegou a ser preso e processado nos Estados Unidos, em 1988, acusado de desviar recursos da multinacional Sansung, através de uma empresa de importação que ele operava nos EUA.

Apesar de estar à frente de todas as negociações em Rondônia e de se apresentar como dono do grupo, Matthew não aparece em nenhum documento oficial nem mesmo como um simples diretor da Susfor. O nome dele simplesmente não existe do ponto de vista formal, mas comunicados por e-mail e telefone provam que é ele quem manda e é o verdadeiro dono do grupo.

Depois de quase dois anos se passando por donos de contratos que não existiam, a Susfor de Matthew conseguiu os contratos com as usinas. Usando contratos de compra e venda feitos com os donos da VP que nunca foram pagos, os donos da Susfor transferiram os contratos de aquisição da madeira feitos com as usinas, usando o argumento de que eles haviam comprado a VP.

Os contratos foram transferidos e então a Susfor passou a ser dona da madeira, mas como levaram o calote, os donos da empresa estão ingressando na Justiça brasileira para reaver os contratos e embargar as operações do Grupo Chinês no Brasil. Os ex-donos da VP também preparam uma denúncia que será entregue ao consulado chinês no Brasil e à Bolsa de Valores de Hong Kong.

O ninho de irregularidades que permeia toda esta história começa a chamar a atenção de autoridades brasileiras, que começaram a investigar o esquema. Diretores da Susfor em Porto Velho já começaram a ser notificados pela Polícia Federal. Pelas investigações iniciais, tudo indica que o esquema está sendo usado pra fraudar a Bolsa de Valores, mas há quem diga que pode ser algo maior: um mega esquema para lavar dinheiro da máfia chinesa.