Dinheiro para lavar e render


Uma história surpreendente pode explicar a presença de 40 milhões de bolívares — o equivalente a R$ 12 milhões —, encontrados, na segunda-feira, pela polícia no Caju, na Zona Portuária da cidade. A hipótese inicial de que o tráfico usaria o dinheiro para comprar fuzis da Venezuela está praticamente sepultada. A investigação aponta para um plano insólito: os bandidos pretendiam lavar as notas para falsificá-las, imprimindo valores de outras moedas, como dólares e reais.

Os pacotes de notas de 100 bolívares estavam distribuídos em 12 malas dentro de dois carros. A descoberta do esconderijo do dinheiro, que estava em poder do tráfico, foi feita a partir de uma denúncia anônima. Durante a operação, houve troca de tiros entre policiais e bandidos. A falsificação, de acordo com os policiais, é feita com o auxílio de produtos químicos que descolorem as cédulas, o que tem alimentado o contrabando de dinheiro.

Em dezembro do ano passado, justamente por conta das máfias que operam nas fronteiras com a Colômbia e o Brasil, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, havia decidido retirar de circulação notas de 100 bolívares. Para Maduro, as quadrilhas estavam contrabandeando as cédulas, o que geraria escassez de papel-moeda e desestabilizaria a economia do país.

Cédulas em galpão no Paraguai

A fronteira da Venezuela com o Brasil chegou a ser fechada no dia 14 do mês passado para combater o contrabando de notas de 100 bolívares. Durante uma operação em Salto del Guairá, a 500 quilômetros a nordeste de Assunção, perto da fronteira brasileira, a polícia do Paraguai apreendeu cerca de 30 toneladas de cédulas venezuelanas, de 50 e 100 bolívares, no galpão de um comerciante, dono de uma loja de materiais de pesca e de armas no país. À época da apreensão, agentes disseram que ele foi flagrado com o dinheiro em sacos. O comerciante teria como objetivo negociar as cédulas e, por isso, foi autuado por lavagem de dinheiro e associação para o crime. A investigação sobre o caso está sendo feita pelo Departamento de Delitos Econômicos de Ciudad del Este e pelo Ministério Público do Paraguai. O dinheiro apreendido com o comerciante seria parte de um lote retirado de um contêiner do Banco Central paraguaio.

Com a hiperinflação na Venezuela (18,5% em janeiro), o bolívar não tem poder de compra. Mas o papel-moeda com que é fabricado vale dinheiro no mercado especializado em falsificação de dólares e reais. Um brasileiro e dois paraguaios estão sendo caçados no Brasil depois de terem sido flagrados oferecendo na fronteira parte das notas dos contêineres desaparecidos por cerca de US$ 1 milhão, segundo um vídeo obtido pela promotoria do Paraguai.

A entrada de bolívares venezuelanos no Brasil já vem sendo investigada desde o início do ano passado pela Polícia Federal e pela Receita Federal em Roraima. De fevereiro a abril de 2016, foram apreendidos mais de R$ 30 milhões de bolívares na fronteira daquele estado com a Venezuela.