Descoberto esquema de espionagem e corrupção na Assembleia do Paraná

Tinha microfones, câmeras escondidas e até uma sala secreta. Segundo as investigações, o esquema causou um rombo de R$ 100 milhões.


Parece filme de espionagem. Uma varredura encontrou equipamentos usados para monitorar funcionários e deputados da Assembleia Legislativa do Paraná. A polícia investiga também um escândalo de R$ 100 milhões.

Uma microcâmera foi embutida em uma caixa de som sobre a mesa de um diretor. Na sala usada pelo presidente, um telefone estava grampeado. Em espaços de reunião, microfones potentes foram colados nas janelas. Escondidos no teto, havia equipamentos importados. Tecnologia de ponta para gravar e enviar para longe o que se conversava no ambiente.

“Ele deve ter uma capacidade de pegar muito claramente, mesmo cochichando nesta sala”, afirmou o técnico em segurança Antônio Carlos Walger.

Na última semana, com a Assembleia sob novo comando, alguns setores que eram de acesso restrito foram abertos e outros, fechados em definitivo. É o caso da gráfica que fica perto do estacionamento, no subsolo de um dos prédios. Ela deixou de imprimir os diários do Legislativo depois de 30 anos.

Muitos dos cadernos que saiam do porão eram secretos. Circulavam apenas entre alguns diretores. Sem divulgação, escondiam-se crimes contra o patrimônio público: nomeações de funcionários fantasmas, laranjas e aposentadorias irregulares. Pelas investigações do Ministério Público, o esquema causou um rombo de, pelo menos, R$ 100 milhões.

Uma sala trancada por tetra chave foi ocupada nos últimos nove meses pelo diretor administrativo, que assumiu a vaga quando o anterior foi preso acusado de desvio de dinheiro público. Ele não tinha secretária. A sala tem sensor de presença que dispara um alarme sempre que alguém entra. É a única da Assembleia com essa proteção.

Segundo funcionários, o diretor trabalhava na sala ao lado, também protegida por tranca reforçada. A polícia investiga se no local funcionava a central de escutas, já que tinha fiação pronta para equipamentos de recepção de áudio e vídeo. Na sala, uma máquina para picar documentos e CDs causou estranheza.

Não mais do que o revólver encontrado no cofre da sala dos vigilantes, que foram todos demitidos e substituídos por policiais militares. Os vigilantes são acusados de fazer parte de um poder paralelo dentro do Poder Legislativo do Estado.

“Havia seguranças armados aqui dentro ameaçando pessoas. Se nós tomássemos as medidas que estamos tomando sem fazer aquela ‘limpa’, nós iríamos apanhar aqui dentro”, afirmou o deputado Valdir Rossoni (PSDB), presidente da Assembleia do Paraná.

Diante de tanta irregularidade, os funcionários da Assembleia do Paraná têm de se recadastrar, e o prazo termina nesta sexta-feira (11). A presidência da casa quer saber quem realmente trabalha e quem só aparece para receber salário. Tem funcionário sem carteira de trabalho com registro da Assembleia, e o salário é pago todo mês. É o que diz, inclusive, o presidente da casa.

A Assembleia Legislativa do Paraná não tem certeza nem do número de funcionários que trabalham no local. Existe uma estimativa: seriam 459 funcionários efetivos. Segundo investigações, a metade não teria função definida. Muitos funcionários dizem que não têm esses documentos que comprovam a contratação devido a um incêndio que aconteceu há 15 anos.

Depois desse recadastramento, o Tribunal de Contas vai analisar a documentação de cada um dos funcionários. A promessa é de que esses funcionários que tiverem o documento reprovado sejam demitidos.