Da busca pelo ouro à lista de foragidos, a trajetória de Eike Batista

Empresário esperava ser um dos cinco homens mais ricos do mundo, mas objetivo foi interrompido pela derrocada dos negócios e suspeitas de corrupção


O nome do empresário Eike Batista já foi associado a poder, fama e muito dinheiro. O ano de 2012, porém, simboliza o início de uma nova etapa. Eike agora está associado a credores, investigações policiais, bens bloqueados e com seu nome na lista de procurados da Interpol, sistema de cooperação entre polícias de 190 países.

Desde quinta-feira (26), Eike é considerado um foragido porque há contra ele um pedido de prisão preventiva decretado pela Justiça Federal do Rio. Ele é suspeito pela prática de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

De acordo com o Ministério Público Federal, o empresário pagou propinas ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) em troca de favorecimentos a empresas dele em contratos com o Estado.

US$ 16,5 milhões

Foi o valor transferido por Eike ao ex-governador Sérgio Cabral, segundo o Ministério Público Federal

Seu advogado afirma que ele está em viagem aos Estados Unidos, tratando de assuntos profissionais e que vai se entregar. A Polícia Federal investiga se Eike foi informado da operação em tempo de deixar o país.

O pedido de prisão é um desdobramento de investigações da Lava Jato no Rio, que tiveram como fio condutor sua relação com Cabral, preso desde novembro de 2016. O ex-governador é acusado de comandar uma organização criminosa que, em troca de propinas, beneficiava alguns empresários nos contratos e obras do governo estadual. Eike era um deles, segundo a Procuradoria.

O novo capítulo da vida do empresário, de 60 anos, deixa a biografia dele cada vez mais distante dos planos que ele fazia para si em 2008: “Meu objetivo é passar o Bill Gates [entre as pessoas mais ricas] em cinco anos. O Brasil tem de ser o número um”.

Do ouro à exploração do petróleo

A trajetória de Eike começou no ramo do minério, com a exploração de ouro na Amazônia, na década de 1980. Aos poucos, ampliou os negócios para as áreas de exploração de petróleo, energia e construção naval.

Todas as atividades ficavam sob domínio do grupo EBX. A letra “X” como parte do nomes das empresas tornou-se uma de suas marcas. Em junho de 2008, o empresário abriu o capital da petrolífera OGX na Bovespa. Com IPO (oferta inicial de ações) captou R$ 6,7 bilhões em valores da época, na maior abertura de capital da história do Brasil até então.

Em 2012, a produção de petróleo da OGX veio muito abaixo da expectativa dos investidores e as ações da empresa começaram a cair. Toda uma cadeia de investimentos baseada na exploração do petróleo foi frustrada. Os prejuízos desequilibraram Eike financeiramente e ele foi obrigado a se desfazer da maior parte de seu patrimônio.

No auge dos negócios, o grupo EBX teve 400 funcionários. O quadro atual é calculado em 20 pessoas.

Negócios e política caminharam juntos

Antes da derrocada, Eike tornou-se um dos maiores e mais bem relacionados empresários brasileiros. A atividade de exploração de petróleo o aproximou dos governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), gestões em que a Petrobras e a exploração da camada do pré-sal tiveram papel de destaque na política econômica.

Um dos resultados dessa proximidade foi o projeto do Porto do Açú, de 2008, que previa a construção de um mineroduto de Minas até São João da Barra (RJ) e instalações para transporte de barris de petróleo. Nesse período, conseguiu empréstimos de R$ 10,4 bilhões do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Avaliado em US$ 3,7 bilhões, o porto teve novos terminais lançados em junho de 2016.

O trabalho de Eike era elogiado pelos ex-presidentes petistas e com Dilma Rousseff o empresário costumava ter contato direto, segundo relatos do jornalista Sergio Leo, autor do livro “Ascensão e queda do império X” (Nova Fronteira, 2014).

Mas Eike também tinha bom trânsito com políticos de diversos partidos. Entre 2006 e 2012, fez doações eleitorais a 13 legendas. No mesmo livro, o autor relata a proximidade do empresário com o senador Aécio Neves (PSDB), a quem Eike classificava como um “dos grandes quadros” políticos do país.

No Rio, onde fica a sede do grupo EBX, o empresário também tornou-se próximo de Sérgio Cabral. No governo do peemedebista, entre 2007 e 2014, Eike ajudou a financiar a campanha para o Brasil sediar os Jogos Olímpicos e por diversas vezes disponibilizou aviões para transportar o então governador.

Da lista dos mais ricos a investigações

Até 2012, Eike sustentava a imagem de riqueza pela qual ficou conhecido. Naquele ano, ele tornou-se o 7º homem mais rico do mundo no ranking da revista “Forbes”, com uma fortuna calculada em US$ 30 bilhões.

Em 2013, quando os problemas financeiros já eram publicamente conhecidos, as cifras caíram para US$ 900 milhões e o brasileiro foi retirado do levantamento da publicação.

Começaram aí também os problemas de Eike com a Justiça. Em 2014 ele se tornou réu, acusado de crimes financeiros por praticar irregularidades em transações financeiras de empresas de seu grupo e manipular preços de ações. Os processos estão em andamento.

R$ 400 milhões

É a atual estimativa da forturna de Eike Batista, segundo “O Estado de S. Paulo”

Em 2016, a Lava Jato se aproxima do empresário em razão de depoimentos de investigados. Na tentativa de se antecipar, ele mesmo presta esclarecimentos voluntariamente. No primeiro deles, afirmou ter repassado US$ 2,3 milhões ao publicitário João Santana, marqueteiro de campanhas petistas, atualmente réu na Lava Jato. Aos investigadores disse que o dinheiro era legal e havia sido solicitado pelo então ministro da Fazenda Guido Mantega, em 2012.

Em novembro de 2016, a Lava Jato prendeu Sérgio Cabral. Pessoas próximas ao ex-governador afirmaram à Polícia Federal que Eike fez remessas regulares a contas bancárias no exterior destinadas ao ex-governador. Esses relatos deram origem à Operação Eficiência, que na quinta-feira (26), tentou prender o empresário.

O advogado afirma que o empresário está “tranquilo” e prestará “todos os esclarecimentos necessários”. Ele não comentou as suspeitas contra Eike. Antes de ser formalmente investigado pela Lava Jato, o empresário tentava reerguer seus negócios. A principal aposta seria lançar um creme dental, Elysium, como revelou reportagem de “O Estado de S. Paulo”, em dezembro de 2016.