Contabilidade do tráfico na Vila Cruzeiro revela gastos de R$ 788 mil na compra de armas


Mesmo com a redução das ações policiais com o pagamento regular de propinas, bandidos não economizaram para montar um arsenal de guerra na Vila Cruzeiro, na Penha.
 
A contabilidade do tráfico obtida pelo Extra revela um investimento de R$ 788.640 para a compra de armas, como metralhadoras e fuzis, segundo a movimentação financeira descrita em anotações feitas durante 307 dias.
 
Uma metralhadora ponto 30, capaz de derrubar até helicópteros, foi adquirida por R$ 115 mil. Na lista de compras constam ainda quatro fuzis AR-15, um M-16, outros cinco de calibre não identificado, granadas, pistolas e caixas de munição. O tráfico tinha preocupação até com a manutenção das armas, como mostram três anotações que comprovam gasto de R$ 400 com a limpeza de fuzis.
 
Muitos confrontos
 
A Polícia Militar não revelou o investimento feito em armamento ano passado, por questões de segurança, mas informou que o 16º BPM (Olaria) recebia atenção especial por causa dos constantes confrontos com traficantes da Vila Cruzeiro.
 
– Era uma das unidades que tínhamos atenção. Os valores gastos pelo tráfico mostram que eles se preparavam para o confronto – disse o relações públicas da PM, coronel Lima Castro.
 
Rota liga Paraguai ao tráfico do Rio
 
Cadernos de contabilidade, encontrados na ocupação dos complexos do Alemão e da Penha, em novembro do ano passado, fazem parte de três importantes investigações, que podem ajudar a polícia a identificar traficantes ligados ao fornecimento de armas ilegais vindas do comércio paralelo, abastecido em Ciudad del Leste, no Paraguai.
 
A Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) trabalha em parceria com a Polícia Federal para identificar quem fazia a rota para alimentar o poder de fogo do tráfico.
 
– As armas eram compradas em território nacional e no exterior – explica o delegado Rodrigo Santoro.
 
A quebra do sigilo telefônico e bancário ajudou o Núcleo de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil a indiciar 25 pessoas, entre empresários, contadores e acusados de lavar dinheiro. Entre os investigados, teriam até donos de restaurante e de postos de gasolina.
 
Codinomes do crime
 
A Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) trabalha para identificar traficantes citados nas anotações.
 
– O problema é que eles são citados por codinome – explica o delegado Pedro Medina, titular da Dcod.
 
Uma anotação feita em 11 de abril pode ajudar a Corregedoria Unificada das Polícias Civil, Militar e do Corpo de Bombeiros a identificar policiais ligados ao tráfico. O registro mostra horário, marca de carro e apelido dos supostos policiais que receberiam dinheiro do tráfico.
 
Dois pagamentos, de R$ 500 cada, foram feitos às 23h. Segundo a contabilidade, uma das propinas seria entregue para uma pessoa identificada como “Thok”, que chegaria numa Blazer. O outro pagamento seria feito para “Tróia”, num Gol.
 
As informações podem ajudar a Corregedoria Unificada na identificação de policiais envolvidos com o tráfico.
 
– Nós investigamos esse tipo de denúncia – disse o corregedor-geral Giusepe Vitagliano.