Chineses serão investigados por suspeita de lavagem de dinheiro no Recife


Os chineses que foram alvo de oito mandados de busca e apreensão cumpridos através da Operação Oriente II, realizada nessa terça-feira (20) no Recife, serão agora investigados pela Polícia Civil de Pernambuco por suspeita de lavagem de dinheiro. A ação, integrada à Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz) e à Receita Federal, também apura a sonegação de impostos.

Dois cofres foram apreendidos nessa terça (20) com o grupo, um deles com joias e outro com R$ 140 mil e 1,7 mil yuans, além de aproximadamente R$ 210 mil com os suspeitos. De acordo com o gestor da Diretoria Geral de Polícia Especializada, Joselito Kehrle do Amaral, o fato de os chineses guardarem dinheiro em casa, evitando fazer movimentações bancárias, pode ser um indício do crime. No entanto, salientou que este é apenas o início da investigação. Dados de comprovantes de movimentação financeira e sete notebooks e dois computadores serão analisados.

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A apuração começou após uma tentativa de homicídio sofrida pelo comerciante chinês Chen Mingyong, em maio desde ano. Mingyong teve as nádegas esfaqueadas por dois homens no Centro, porém conseguiu correr e pedir ajuda. Durante as investigações sobre a motivação do crime, o delegado Alfredo Jorge confirmou que os suspeitos tentaram matar o comerciante porque ele se negava a obedecer às imposições de um grupo de compatriotas que tentavam monopolizar o fornecimento de produtos importados no comércio do Centro do Recife, principalmente de guarda-chuvas. O grupo agia com características de formação de cartel, com os preços tabelados e um pouco acima da média.

O esquema tem como líder o chinês Lin Jiankang, conhecido entre os compatriotas como A Kang ou ‘Cão’. Embora a Justiça pernambucana tenha emitido um mandado de prisão preventiva contra ele, Jiankang está foragido. “Recebemos informações de que ele voltou para a China após o crime e não teria conseguido a autorização para retornar ao País”, explicou o delegado Alfredo Jorge. O suspeito de desferir as facadas, Chen Fei, chegou a ser detido, mas foi liberado por não haver mandado de prisão preventiva nem provas contra ele.

Também têm paradeiro desconhecido outros cinco suspeitos da tentativa de homicídio que foram alvos de mandado de prisão preventiva: Lu Ming Hon, Lin Zhen Hui, Hu Mu Jian, Wu Vi Jie e Wu Junyu. O último teria sofrido uma tentativa de latrocínio em Fortaleza, capital do Ceará, porém não foi encontrado pela polícia do estado para prestar esclarecimentos. “Por guardarem dinheiro em casa, muitos são assaltados, mas não prestam queixa por isso. Como iriam explicar que não fazem movimentações legais? Só chega ao nosso conhecimento quando é latrocínio, porque a morte é registrada”, explicou o delegado Joselito Kehrle. Ainda faz parte do grupo um comerciante identificado como Lin Jie, que não teve a participação na tentativa de homicídio confirmada nas investigações.

O líder da quadrilha é proprietário de apartamentos nos edifícios Píer Duarte Coelho e Maurício de Nassau, conhecidos como torres gêmeas, no Centro do Recife, e tem outros endereços na capital pernambucana. No de número 3201 do Maurício de Nassau, havia 34 passaportes e uma carteira de presidente da Associação Sino-brasileira de Indústria e Comércio Exterior. “A importância dessa carteira é que pode ser uma tentativa de legalizar a quadrilha”, defendeu Alfredo Jorge. O cofre que foi encontrado com joias e objetos pessoais estava no outro apartamento no edifício, o de número 2202, enquanto o outro estava em Boa Viagem, na Zona Sul.

De acordo com o delegado Joselito Kerhle, os passaportes de chineses que moram e trabalham legalmente no Brasil eram usados por compatriotas que estavam no País clandestinamente. O delegado explica que uma das formas de evitar o flagrante era utilizar codinomes brasileiros, como a comerciante Liu Jian, 43 anos, detida em flagrante por porte ilegal de arma em um depósito na Rua Imperial, que costuma ser chamada Helena e tem uma irmã gêmea que usa o mesmo nome.

Os apartamentos nas ‘torres gêmeras’ têm quatro suítes, cada uma ocupada por uma família de chineses. Integrantes delas foram alvo de oito mandados de busca e apreensão e conduzidos para a Delegacia de Imigração da Polícia Federal para ter a documentação averiguada. Apenas um deles não tinha visto para residir e trabalhar no Brasil. Uma adolescente e um bebê nascido no País também foram encaminhados para a PF. Todos já foram liberados e o processo de extradição foi aberto contra o chinês que vive clandestinamente no Recife.

Tributos – A preferência pelo dinheiro em espécie também dificulta a fiscalização da Secretaria da Fazenda em relação ao recolhimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Na operação dessa terça, foram interditados quatro galpões e duas lojas no Centro e na Zona Sul do Recife, todos com mercadorias sem nota fiscal. A gerente de um depósito que fica na Rua Imperial foi detida por porte ilegal de uma arma encontrada no local, porém foi liberada após pagar fiança. Além disso, foi solicitado o cancelamento da inscrição estadual de uma empresa em Caruaru, no Agreste pernambucano, suspeita de emitir cupons fiscais para acobertar a ação do grupo na capital.

“Há uma tendência de cartelização, que é prejudicial ao Estado”, afirmou o gestor de Operações da Sefaz, Anderson Alencar. “Queremos evitar que aqui fique igual à de São Paulo, onde o Fisco já perdeu o controle. Queremos mostrar que temos, sim, o controle da situação”, concluiu.

Segundo o chefe do departamento de Repressão ao Contrabando e ao Descaminho da Receita Federal, Carlos Fernando Figueiredo Barros, os baixos salários pagos aos trabalhadores, a desvalorização da moeda chinesa e o não pagamento dos tributos faz com que os produtos sejam comercializados com preços abaixo da média. “Queremos evitar essa concorrência predatória e desleal aos comerciantes que pagam impostos. Isso fecha fábricas, causa desemprego e tem outras consequências”, disse. A ação contou com 60 policiais civis, 54 militares, 42 auditores e fiscais da Sefaz e 20 auditores da Receita.

Oriente I – As secretarias de Defesa Social (SDS) e da Fazenda conseguiram apreender cerca de R$ 8 milhões em mercadorias irregulares, a maioria de origem asiática, em três dias de operação em maio do ano passado. Cinquenta e oito estabelecimentos foram fiscalizados, dos quais 40 foram interditados. De acordo com levantamento da Sefaz, a ação fez com que a arrecadação aumentasse 40% nesses locais.