Caso Bancoop: MP investiga indícios de triangulação para abastecer caixa dois do PT


SÃO PAULO – A quebra de sigilo bancário na investigação do caso Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo) rastreou a triangulação financeira realizada para, supostamente, abastecer um caixa dois do PT nas eleições de 2002. A análise preliminar das movimentações da consultoria Mizu, considerada uma da fachadas do esquema, revela que cheques contabilizados internamente pela consultoria como doações ao PT não chegavam diretamente ao partido. Esses valores voltaram à Bancoop, que, por sua vez, repassava o dinheiro ao PT.

O objetivo desse caminho tortuoso, segundo a investigação, seria mascarar a doação ao PT e dificultar o rastreamento dos recursos. Para o Ministério Público de São Paulo, o sistema "mascarava doações eleitorais ilegais", feitas a partir de saques em dinheiro.

A partir de um controle bancário interno, fornecido por uma testemunha que trabalhou na empresa Mizu Gerenciamento e Serviços S/C Ltda, a promotoria buscou o destino de seis cheques, quase sequenciais, emitidos em outubro de 2002 e registrados como "Doação P.T." Descobriu-se que os números, datas e valores dos cheques conferiam com o extrato da conta. Foram achados os verdadeiros destinatários, já que as contas do PT não registravam essa receita. Três dos cheques, totalizando R$ 14.450, foram destinados de volta à Bancoop. Dois não foram encaminhados, e um, recebido por pessoa física, cujo nome é mantido em sigilo.

"Os cheques emitidos pela Mizu (credora) tendo como destinatário final a Bancoop (devedora) representam uma operação fraudulenta para mascarar doações eleitorais ilegais e lesar milhares de cooperados", diz o relatório parcial do promotor José Carlos Blat, enviado à Justiça em 5 de março.

"Aliás, essa mesma operação de inversão de papéis entre credor e devedor foi encontrada nos cheques emitidos pela Germany para a Bancoop", diz o texto. A análise preliminar localizou o primeiro exemplo dessa triangulação, referente à empreiteira Germany, que também tinha os ex-dirigentes da Bancoop como sócios. Trata-se de cheque, de 9 de junho de 2004, de R$ 124 mil, destinado à cooperativa. Pelas vias oficiais, a Germany fez pelo menos uma doação ao PT, de R$ 60 mil, em agosto de 2004, segundo registro na Justiça Eleitoral.

"Ressalte-se que a Mizu e Germany eram fornecedoras exclusivas da Bancoop, superfaturando as notas fiscais para o efetivo desvio de valores da cooperativa", afirma o texto. O papel da Mizu, contratada pela Bancoop de 2002 a 2003, nunca foi claro. Mais tarde, essa empresa se transformou na Mirante, fabricante de blocos de concreto que atendia à Bancoop. A Germany atuava como construtora e recebeu cerca de R$ 10 milhões da Bancoop, segundo os registros bancários de 2001 a 2008.

Segundo os registros oficiais das duas empresas, constam como sócios-proprietários: Luiz Malheiro (ex-presidente da Bancoop), Alessandro Bernardino, Marcelo Rinaldo Tomás e Edson Fraga. Os três primeiros morreram em um acidente de carro em 2004 em Petrolina (PE). João Vaccari Neto, então diretor da cooperativa, assumiu a Presidência. Licenciou-se em fevereiro para ser tesoureiro do PT. Procurada, a Bancoop informou que não pode responder pela movimentação financeira de terceiros. "As duas empresas não são mais fornecedoras da cooperativa e a Bancoop não teve acesso às informações do inquérito e, portanto, não pode se manifestar".