Cachoeira, ex-mulher, ex-cunhado e contador viram réus em processos que apuram lavagem de mais de R$ 37 milhões

Segundo denúncia do MPF, Carlos Augusto Ramos utilizava familiares como laranjas para registro de imóveis e bens provenientes da renda com jogos de azar. Contraventor já cumpre pena em regime semiaberto, condenado por fraudes em loterias.


O contraventor Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, que já cumpre pena em regime semiaberto, condenado por fraudes em loteria, virou réu em dois processos que apuram a lavagem de mais de R$ 37 milhões. De acordo com a denúncia Ministério Público Federal (MPF), aceita pela Justiça Federal, Cachoeira utilizava os familiares como laranjas para registrar imóveis e bens provenientes da renda com jogos de azar.

Além do contraventor, a Justiça Federal também tornou réus a ex-mulher dele, Andréa Aprígio de Souza, o irmão dela e ex-cunhado de Cachoeira, Adriano Aprígio de Souza, e o contador Geovani Pereira da Silva, que, segundo o MPF, era responsável pela gestão financeira de uma organização criminosa chefiada por Carlinhos Cachoeira na exploração de jogos de azar.

A defesa de Andréa e Adriano não foi localizada. Já o advogado de Cachoeira, Cleber Lopes, diz que os fatos abordados na denúncia “são antigos e que já eram de conhecimento do Ministério Público desde a deflagração da Operação Monte Carlo”.

Além disso, segundo a defesa, o MP está acusando o Carlos Augusto da lavagem de dinheiro decorrente da contravenção penal do jogo de azar, o que não seria possível, já que até 2013 esse crime estava ligado a crime antecedentes.

“De maneira que, juridicamente, é impossível acusar alguém de lavagem de dinheiro decorrente da contravenção quando o fato for anterior à lei de 2013”, completou.

Por fim, o advogado afirma que vai fazer a defesa de Carlos Augusto como tem feito nos demais processo e certamente demonstrará a improcedência das acusações apresentadas pelo MP.

A denúncia contra Cachoeira, Andréia e Adriano foi aceita na última quinta-feira (24) pelo juiz Rafael Ângelo Slomp, da 11ª Vara Federal de Goiânia. Além de exigir resposta da defesa dos três, o magistrado também decretou o sequestro de bens relacionados na denúncia apresentada pelo MPF.

No documento, o juiz considera que a ex-mulher e o ex-cunhado de Cachoeira registravam bens em seus nomes como “ocultação e branqueamento” dos mesmos. Foram listados pelo MPF pelo menos 58 imóveis no nome dos dois, totalizando quase R$ 24 milhões.

“Observa-se que o denunciado Adriano Aprígio promoveu a ocultação e branqueamento de bens de Carlos Cachoeira, dissimulando, por diversas vezes, a propriedade de bens imóveis auferidos de infrações penais, registrando-os em seu nome. Por fim, quanto à denunciada Andréia Aprígio, o MPF destaca que a ré dissimulou a propriedade dos bens que caberiam a Carlinhos Cachoeira na partilha decorrente da separação consensual do casal (meação), praticando, assim, o crime de lavagem de dinheiro”.

“Há indícios suficientes nos autos de que a denunciada é/foi utilizada como ‘laranja’, com a finalidade única de ocultar a origem do patrimônio supostamente ilícito pertencente, de fato, a Carlinhos Cachoeira”, afirmou na sentença.
Já a denúncia contra o contador de Cachoeira, Geovani Pereira, foi recebida pela Justiça Federal no último dia 10 de janeiro. De acordo com o MPF, o contraventor utilizava as contas bancárias do seu então contador, Geovani Pereira da Silva, para movimentar recursos financeiros obtidos com a exploração de máquinas caça-níqueis. Conforme o órgão, entre 2008 a 2011 Cachoeira teria movimentado mais de R$ 13,8 milhões por meio do contador.

Ambos procesos são oriundos da Operação Monte Carlo, deflagrada em 2012 para apurar a exploração de jogos ilegais e o envolvimento com agentes públicos.

Avião e bens no nome da ex

Conforme citado na decisão do juiz, os dezenas de bens foram adquiridos no nome de Adriano e André entre 1995 até 2012, quando a Operação Monte Carlo trouxe à tona o esquema. Para transformar dinheiro ilegal em rendas aparentemente lícitas, de acordo com a sentença, Cachoeira constituiu ao menos seis empresas no nome de terceiros. Estas pessoas físicas eram utilizadas, de acordo com o juiz, para movimentar dinheiro da exploração de máquinas caça-níqueis.

Segundo consta no documento, Cachoeira se aproveitou do processo de separação consensual da ex-mulher para manter a renda expressiva que já havia tido com os jogos ilegais. Quando se separaram, Andréa ficou com todos os móveis, imóveis e ativos financeiros, e Cachoeira apenas com uma empresa sem valor comercial.

“Os elementos de prova constantes dos autos demonstram a existência de indícios de autoria delitiva em crime de lavagem de capitais, vez que Andréa auxiliou Carlinhos Cachoeira na dissimulação patrimonial”, considerou.

Ainda na sentença, cita-se, em referência a um levantamento de dados feito pela Receita Federal, bens como fazendas, participações em empresas, transações em imóveis em Miami, nos Estados Unidos, e até um avião, que, segundo a investigação, era oriundo do pagamento da venda de uma fazenda do contraventor.

“Se não bastasse tal aeronave, registrada em nome de Andréa Aprígio, foi apresentada como pagamento da Fazenda Gama, negócio entabulado por Carlinhos Cachoeira. Em outras palavras, pode-se chegar à conclusão de que Cachoeira dissimulou a origem de tal bem transferindo-o a Andrea Aprígio e, ato contínuo, apresentam-no, já lícito, como pagamento de um outro contrato, então assinado por Adriano Aprígio, irmão de Andrea”, escreve o juiz.

Monte Carlo

A Operação Monte Carlo foi deflagrada em 2012 e prendeu, entre outras pessoas, Cachoeira, apontado pelas investigações como chefe da organização criminosa. Atualmente, ele cumpre pena em regime semiaberto por fraudes na Lotérica Carioca e usa tornozeleira eletrônica, conforme informou a Diretoria-Geral de Administração Penitenciáira (DGAP)

Na época da operação, foi constatada a existência de uma espécie de “franquia” do crime. Por meio da qual, seriam dadas autorizações para a exploração dos pontos de jogos a donos de galpões clandestino.

Também durante as investigações, a Polícia Federal apurou que servidores públicos recebiam propina mensal ou semanal para trabalhar a prol da organização, fechando locais que não tivessem autorização dos chefes da quadrilha, por exemplo.

A operação investigou crimes de contrabando, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, tudo desde 1999.