Artistas brasileiros são alvo de rede mafiosa na Turquia


O cônsul geral do Brasil em Istambul, Michael Gepp, tem denunciado esquemas de tráfico de seres humanos e exploração sexual que incluiu brasileiros na sua rota. O golpe origina-se de convites para apresentações de dança e trabalhos de modelo no exterior.

– O crime organizado internacional age impunemente na Turquia, através das máfias turca, albanesa, russa e ucraniana, em especial, durante os meses de verão, ao longo dos balneários sobre o Mar Egeu: Izmir, Bodrum, Mügla, Antalya, entre tantos outros. Principalmente mulheres são recrutadas na Europa e América do Sul, viciadas em heroína, para, uma vez dependentes da droga, escravizadas, prostituídas, serem revendidas para países do Oriente Médio. As entidades policiais nesses balneários estão igualmente envolvidas, e se beneficiando de remuneração pela "ajuda" prestada – diz o cônsul.

Em situação migratória irregular na Áustria, uma carioca e uma paulista aceitaram dinheiro para ir à Turquia e obter nova autorização de entrada na União Europeia. "Não perceberam de início que caíram numa rede de prostituição em cabarés de terceira categoria em Izmir, onde trabalhariam junto com outras estrangeiras nascidas na Europa", conta Gepp. Parentes e amigos se cotizaram no Brasil e bancaram o voo de volta, em fevereiro.

– No mesmo dia do embarque, foram "devolvidas" aos seus países uma francesa e uma russa. Mesmo sistema: negaram-se e foram "anonimamente" denunciadas à Imigração, por estarem trabalhando sem autorização – relata o cônsul geral.

Ele não sabe se o aliciador turco já esteve no Brasil, mas, com o cartão dele em mãos, solicitou ao Ministério das Relações Exteriores que repassasse os dados ao Ministério da Justiça para incluí-lo na "lista de indesejáveis", embora sem proibição de entrada.

Calote

Entre abril e maio de 2010, seis mulheres e quatro homens partiram à Turquia para exibições de samba, capoeira, dança do fogo, frevo e lambada em cassinos e hotéis. Ficariam um semestre, porém não receberam remunerações durante os aproximadamente 50 dias lá, sofreram constrangimentos e ameaças.

Um dançarino brasileiro, professor de danças urbanas, havia procurado o empresário do grupo, Paulo Franco, e indicado um agente turco. Depois, o dançarino desistiu de ir junto.

– Ficou claro que ele fazia parte desse esquema de angariar pessoas para viajar", interpretou Franco. – Sempre vivi de espetáculos culturais, principalmente no exterior. Nunca havia fechado nada para a Turquia, por normalmente oferecerem remuneração muito baixa. Não havia nada de extraordinário, era tudo muito normal, inclusive a remuneração "meia boca".

Ele já conhecia a fama de um turco apelidado de Samurai, acusado de cooptar sobretudo mulheres para prostíbulos, sob a fantasia de montar agências de modelo e shows culturais. "Um capoeirista estava numa situação delicada com ele. Conseguiu sair (da Turquia) na raça, com ajuda do consulado de Istambul", conta Franco.

Os percalços do seu grupo apareceram já nas primeiras horas. "Queriam nos instalar num local em péssimas condições, e não aceitamos. Era um lugar meio abandonado, afastado. Chegamos a passar uma noite lá", diz.

Franco consentiu que os shows começassem antes de as questões legais serem viabilizadas. "Entreguei o contrato, e o agente turco passou a me enrolar para resolver", lembra. "E começou a implicar com algumas pessoas do elenco, querendo mandá-las embora, depois de aceitá-las normalmente. Entendi como pretexto para criar uma situação de desvantagem (para nós)".

As suspeitas de aliciamento não demoraram.
– Mostrou interesse em determinadas meninas do elenco. Notei que ele se incomodava muito quando marcava entrada de globo girls, o que na Europa é muito comum em festas, e eu não permitia que elas fossem sozinhas. Isso o incomodava muito. Então ele passou a marcar dois eventos no mesmo horário para eu deixar de ir com o grupo. Mesmo assim eu mandava dois rapazes da minha equipe com as meninas.

O turco pedia a ida de mais dançarinas. Franco fingia providenciar mais brasileiras.
– Para ganhar tempo e ver qual era a dele, pois estava estranho. Eu era a pedra no sapato dele porque ele queria mesmo aliciar as meninas, alguma coisa assim. Ele pegou essas meninas, botou no carro sem que eu soubesse, propôs que elas ficassem lá e me mandaria embora com o resto da equipe. Teriam moradia no melhor hotel da rede, salários, ganhos maiores e blablablá. Algumas pensavam em ficar. Uma das meninas ficou indignadíssima, nervosíssima, veio me contar. A partir daí, foi ficando mais estranho e pesado o clima. Ele ainda não havia pago o primeiro mês da temporada.

‘Brasileiro é merda’

Acionando sua mãe no Rio de Janeiro, jornalistas e um advogado que combate o tráfico de seres humanos, Franco avisou que ficassem em alerta.
– Um dia, ele me pediu as músicas do show, que eram edições exclusivas minhas. Eu disse que poderia entregar, mas eu precisava do contrato formalizado, que ele ainda não tinha devolvido. Ele me ameaçou de morte, disse que brasileiro era merda, que eu não sabia com quem eu estava lidando. Ouvi o que ele tinha pra dizer, subi para o quarto, chamei o elenco e contei o que havia passado – narra o empresário.

A notícia se espalhou na mídia brasileira. "Eu precisava fazer barulho para garantir a minha integridade física e a dos demais. Isso chegou à imprensa turca, os empresários foram procurados. O agente já não poderia me matar, então mudou de tática, queria me deportar ilegitimamente, pois eu teria os bilhetes, tudo certinho", afirma Franco. "Telefonei para o plantão do consulado de Ancara, e o funcionário disse que sentia muito, que não podia fazer nada e que eu me virasse e fosse embora o mais rápido possível".

Ao saber das denúncias, entretanto, o cônsul-adjunto Samuel Bueno, da equipe de Gepp, chegou de Istambul ao litoral do Mar Egeu para ajudar os dançarinos. "Fizemos uma reunião com ele, decidimos ir embora e formalizar queixa. Estávamos fazendo espetáculos diariamente sem receber um tostão. A gendarmeria disse que o agente tinha passagem na políca, mas ela era comprada. Na surdina, começaram um processo de deportação, nós percebemos", comenta Franco.

Na polícia, em Bodrum, estavam os empresários que contrataram os shows, tentando tomar os passaportes. "A gendarmeria apreendeu nossa bagagem no carro para que não fôssemos embora. Provocavam os meninos da capoeira para arranjar motivo de prendê-los. A tropa nos cercou. A única preocupação deles era que não chegássemos a Istambul, pois lá eles não mandavam".

A pressão do governo brasileiro amenizou a situação. O grupo passou quatro dias em Istambul, remarcou a passagem e voltou ao Brasil. Paulo Franco reclama que a Polícia Federal não deu atenção ao caso, no desembarque. "Fiz questão de depor quando cheguei. Foram duas horas. No final das contas, ficou por isso mesmo".