Análise reputacional em IPOS entra no radar de investidores


São Paulo, 15/05/2017 – A análise reputacional das companhias que trabalham para abrir capital entrou de vez na linha de frente da avaliação dos investidores após as lições que começam a ser aprendidas com a Operação Lava Jato. Como forma de prover mais informações do gênero para complementar o prospecto da oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e, ainda, para as apresentações com investidores, os chamados roadshows, os emissores têm contratado due dilligences de análise da imagem e reputação da companhia e de seus administradores.

A busca por esse tipo de serviço tem movimentado a consultoria Kroll Brasil, que atua em gestão de riscos e investigações corporativas. “A análise nessas due dilligences tem foco, por exemplo, em contratos com empresas públicas, associações corporativas”, afirma a diretora de operações da consultoria, Fernanda Barroso. “A Lava Jato trouxe essa nova demanda”, explica.

Com a continuidade dos desdobramentos da Operação Lava Jato e uma fila de ofertas iniciais engrossando dia a dia, as questões reputacionais devem ficar na mira dos investidores com interesse em entrar no IPO, tendo em vista que essas empresas ainda não possuem um histórico público.

Segundo especialistas, o entendimento é que falhas reputacionais podem ser custosas para as empresas e, consequentemente, aos investidores. Dessa forma, um momento crucial para que essa análise seja feita com rigor é no momento de sua abertura de capital, já que tornará a empresa pública, com uma gama de acionistas minoritários. Essas empresas não possuem histórico público, o que torna ainda mais importante a formação de uma ampla gama de informação.

Com essas informações em mãos é possível ainda um melhor equacionamento da precificação da oferta, tendo em vista que o risco à imagem resulta em prejuízos financeiros, além de poder colocar em xeque até mesmo a perpetuidade de uma companhia. “Existe uma pressão do mercado para que as empresas apresentem essa documentação”, destaca a executiva.

É natural, frisa o presidente da empresa de governança corporativa Governance Solutions, Carlos Airton, que investidores queiram mais informações sobre a reputação de empresas e empresários antes de apostarem seus recursos nas empresas. “Vivemos um momento muito delicado no mercado onde sucessivos escândalos têm criado nuvens negras de suspeição sobre empresas e empresários brasileiros. Estamos falando de grandes empresas como Petrobras, grupo JBS, Odebrecht e tantas outras. É natural que os investidores fiquem temerosos quanto aos riscos. Lembre que os principais parâmetros que um investidor utiliza em sua decisão são risco e retorno”, afirma.

Fernanda, da Kroll, destaca que o Brasil, neste momento, está seguindo o caminho já trilhado em outros países, que possuem leis de anticorrupção mais antigas. “Em outros países essa demanda já existia e a legislação funciona muito bem”, diz.

O advogado do Stocche Forbes e especialista em Mercado de Capitais, Marcos Ribeiro, nota que existe ainda o questionamento dos investidores sobre as políticas de compliance das empresas e a forma de implementação. “Temos visto também nos documentos da oferta a inclusão de declarações mais completas em relação ao assunto, por meio das quais os emissores garantem cumprimento das leis anticorrupção no Brasil e em outras jurisdições onde atuam ou que tenham alguma relação com a oferta”, diz.

“Há muitas empresas preocupadas em estruturar esses processos e a operação Lava Jato fez esse movimento crescer e paras as grandes empresas isso deixou de ser um luxo”, afirma o responsável pela Intralinks no Brasil, empresa que fornece serviços de due dilligence, Cláudio Yamashita.

No entanto, na opinião do presidente da Amec, associação que reúne investidores minoritários, Mauro Cunha, a realização de mais uma due dilligence pode significar, apenas, mais um “check list”. “O que está se tornando claro é que é preciso conhecer a cultura das companhias. A reputação é consequência dessa cultura. E cultura não só diz respeito à corrupção, mas se a empresa está madura para abrir seu capital”, afirma. “É preciso gastar sola de sapato, olhar power points não irá ajudar em nada”, conclui.

O sócio-fundador da AML Consulting, Alexandre Botelho, afirma que a despeito do contexto da Lava Jato, a percepção é de que, ao lado do investidor, o olhar segue, muito exclusivamente em torno do retorno dos investimentos. “Ainda não vejo essa preocupação do investidor”, lamenta.

(Fernanda Guimarães – fernanda.guimaraes@estadao.com