Quarta-feira com cheiro de pastelão no Senado

O cenário está armado para um grande pastelão no Conselho de Ética do Senado. A partir das 15h desta quarta-feira, o presidente do colegiado, Paulo Duque (PMDB-RJ), vai analisar as representações contra seu correligionário, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). No mesmo horário, Sarney parte para o plenário da Casa, onde responderá às denúncias de irregularidade que lhe acometem desde que tomou posse na presidência, pela terceira vez, em fevereiro.

Senadores de diversos partidos consultados pelo Congresso em Foco não escondem o receio de que Duque opte pelo arquivamento das representações contra Sarney. Os parlamentares entrevistados também acusam a interferência do Palácio do Planalto na manutenção do peemedebista à frente do Senado. A ação acontece nos bastidores e é conduzida com mão de ferro pelo presidente Lula, de olho na governabilidade da Casa e com vistas à aliança nacional PT-PMDB na sucessão presidencial de 2010.

“O governo está trabalhando nessa direção”, admite o senador Flávio Arns (PT-PR), acrescentando que a não aceitação das representações “vai gerar uma crise institucional bastante acentuada”.

Os sinais de que Duque arquivará as representações são tão evidentes que dois senadores, José Agripino (DEM-RN) e Renato Casagrande (PSB-ES), declararam antecipadamente a intenção de apresentar recursos ao plenário do Conselho de Ética e do Senado para que o arquivamento seja revisto.

Ontem (4) à noite, surpreendendo quem não o esperava na Casa antes da reunião do colegiado, Duque garantiu já ter tomado uma decisão e reafirmou não temer repercussão negativa de um eventual arquivamento das denúncias perante a opinião pública.

Na operação salvamento no Conselho de Ética, o Planalto avalizou até mesmo o embate da segunda-feira (3), quando se travou uma das sessões mais tensas dos últimos meses no Senado, para demonstrar não só a disposição de Sarney em se manter no posto, como também a tendência do governo federal em colocar seu poder em favor da causa. Na segunda, Pedro Simon (PMDB-RS) fez mais um discurso pelo afastamento de Sarney, no que foi duramente contra-atacado por dois dos mais influentes integrantes da tropa de choque do cacique peemedebista: o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), e o senador Fernando Collor (PTB-AL).

“O governo deu força total no sentido de arquivar”, destacou Simon à reportagem. Desafeto declarado de Sarney, assim como outra figura histórica do PMDB, Jarbas Vasconcelos (PE), Simon foi um dos primeiros senadores a pedir publicamente, da tribuna do plenário, o afastamento ou renúncia de Sarney. “Lula dá respaldo a isso”, reclama Jarbas. Ao lado de Cristovam Buarque (PDT-DF) e do líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), o pernambucano foi um dos que defenderam Simon da ira de Collor e do desdém de Renan, no embate de anteontem.

Jarbas faz um mea culpa ao admitir que a composição do Conselho de Ética deveria ter sido decidida logo após a eleição de Sarney. “Não temos o mínimo de organização”, lamenta o senador, lembrando que a rejeição da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) é o único exemplo de união dos oposicionistas no Senado.

O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), diz que o Planalto não se intromete nas questões internas da Casa e busca no tempo inspiração filosófica para uma eventual mudança de clima no Senado. “Vinte e quatro horas em política é um longo prazo. Um minuto mudaria o rumo do Titanic, imagine 24 horas.”

Jucá sabe do que fala: nos últimos momentos da noite desta terça-feira (4), o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), sinalizou uma mudança de rumo de sua bancada em relação ao fechamento de questão suprapartidário anunciado pela manhã, envolvendo PSDB, DEM, PDT e alguns membros do próprio PMDB, pela saída de Sarney.



Segundo Mercadante, apesar de defender um desligamento temporário, o PT não mais assinará o documento que pede o afastamento de Sarney, uma vez que não haveria identificação partidária para fazer o pedido em conjunto.