Oposição a Sarney costura acordo pelo afastamento de senador

BRASÍLIA – Senadores do DEM, PT, PSDB, PDT e PSB que defendem o afastamento de José Sarney (PMDB-AP) da presidência do Senado reagiram à ofensiva promovida pelos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Fernando Collor (PTB-DF) e pretendem unir forças para obrigar Sarney a se afastar da presidência do Senado. 

Em reunião que terminou no início da tarde desta terça-feira (4), os líderes dos partidos decidiram pressionar pela saída de Sarney do comando do Senado – desta vez, não em discursos individuais, mas por meio de nota, assinada pelas cinco legendas, que o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), apelidou de "frente pela dignidade do Senado". 

O fechamento do acordo depende ainda do consentimento do senador Antonio Carlos Valladares (PSB-SE) e de uma decisão do líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), que deverá consultar a bancada. 

Na segunda-feira (3), Collor e Calheiros engrossaram o discurso em defesa de Sarney e trocaram acusações com o senador Pedro Simon (PMDB-RS), quando o parlamentar gaúcho pediu a renúncia de Sarney do comando da Casa. 

O presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), disse que a atitude dos senadores que apoiam Sarney foi "condenável". "O Brasil merece o respeito à figura do senador Pedro Simon", disse Guerra. "Não ameaçamos ninguém, e não aceitamos ameaça de ninguém. Isso não é conversa de democrata, é conversa de mafioso". 

Na avaliação de Arthur Virgílio (AM), a "radicalização" dos discursos de Calheiros e Collor "foi um tiro no pé". "Foi um grande tiro pela culatra, não podia ter sido um tiro mais certeiro no pé. A opinião pública toda assistiu e percebeu que era a briga entre os ‘the bads’ e os ‘the goods’". 

Mais cedo nesta terça-feira, Mercadante cancelou uma reunião da bancada petista que discutiria a posição do partido em relação ao afastamento de José Sarney. A decisão de cancelar a reunião foi uma forma de tentar evitar mais desgaste para o partido, já que não houve mudança de posição dos senadores do PT. 

"Nossa avaliação é de que a licença (de Sarney do cargo de presidente) é a melhor solução, e nenhum senador (petista) pediu para reavaliar essa posição", disse ele, o chegar ao gabinete de Guerra. 

Outra decisão tomada pelos partidos é que se o senador Paulo Duque (PMDB-RJ), presidente do Conselho de Ética, pedir o arquivamento das 11 ações que pesam contra Sarney, esses cinco partidos vão recorrer da decisão ao próprio conselho e, se preciso, ao plenário. 

Estratégia de Defesa 

Segundo assessores de Sarney, o presidente abordará em seu discurso a questão da crise no Senado. Os assessores do senador não souberam dizer, entretanto, se em seu discurso Sarney pretende antecipar uma defesa no Conselho de Ética. 

Sarney responde no Conselho de Ética a cinco representações e seis denúncias que o acusam da contratação de aliados e parentes por atos secretos a desvio de dinheiro destinado pela Petrobrás à Fundação Sarney para empresas fantasmas. 

"Evidente que dentro desta estratégia do enfrentamento, de que o PMDB deve ir à guerra, ele [Sarney] também deve participar. Afinal, é o líder do partido, é o líder desta história. Dentro deste contexto, ele não vai ficar numa posição cômoda, à sombra", disse há pouco à Agência Estado um assessor do senador, numa referência à estratégia adotada na segunda-feira (3) pelos aliados de Sarney. 

Esse será o segundo discurso do senador José Sarney sobre a crise. Um dia antes do início do recesso parlamentar, Sarney fez um balanço do encerramento dos trabalhos do semestre e afirmou que não titubeou em momento algum em tomar as medidas cabíveis em resposta às denúncias de irregularidades que atingiram a instituição. 

"Os desafios, a carga de trabalho, os insultos, as ameaças não me amedrontaram. Estamos construindo, tenho certeza, um novo Senado", afirmou à época. "As grandes injustiças só podem ser combatidas com o silêncio, a paciência e o tempo", disse, citando o filósofo Lúcio Séneca (4 a.C-65 d.C).