CBF admite uso de recursos públicos

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, e o ministro do Esporte, Orlando Silva, tinham um discurso afinado em 2007: "Não haveria dinheiro público na reforma ou construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil."



Ontem, porém, a ficção sucumbiu à realidade, a exemplo do planejamento para o Pan-Americano de 2007. Ricardo Teixeira deixou claro que recursos públicos serão injetados em pelo menos oito dos 12 estádios que vão ser reformados ou construídos para o Mundial.



"Esses estádios (excetuando os privados, Morumbi, Beira-Rio e Arena da Baixada) são do governo. Necessariamente, (a reforma deles) vai ter que envolver governo", disse Ricardo Teixeira, durante entrevista à tarde na sede da CBF. Existe a previsão de que sete estádios públicos passem por obras até o Mundial. A esse grupo se junta o de Natal, que terá uma nova arena erguida até dezembro de 2012 com 49% de investimentos do governo local e 51% da iniciativa privada. No Recife, ainda não está definido com qual dinheiro será construído o novo estádio.



Em novembro de 2007, Teixeira havia garantido, num jantar realizado em São Paulo, com a presença do governador José Serra, que somente haveria dinheiro público no projeto 2014 para obras de infraestrutura, como reformas de estradas e aeroportos. No mês seguinte, Orlando Silva foi mais enfático e afirmou que o Brasil não gastaria "nenhum centavo de dinheiro público" na construção ou reforma de estádios para a Copa do Mundo.



Um sinal de alerta sobre a origem desses gastos foi dado em junho, quando o prefeito de Cuiabá, Wilson Santos (PSDB), declarou que seriam aplicados cerca de R$ 350 milhões de recursos públicos para aprontar o estádio da cidade, que deve abrigar jogos da Copa. "Eu sempre falei de PPPs (Parcerias Público-Privada) nas obras dos estádios. Vocês não entenderam", rebateu Teixeira.



Abaixo, outros temas da entrevista, que teve duração de quatro horas e contou também com a presença do técnico da seleção, Dunga, do presidente da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF, Sérgio Correa, do diretor técnico da entidade, Virgilio Eliseo, e da secretária administrativa do Comitê Organizador do Mundial de 2014, Joana Havelange, filha de Ricardo Teixeira.



MORUMBI



O estádio já está com um novo projeto que vai ser apresentado a uma comissão da Fifa, em seminário, no Rio, entre os dias 17 e 21 de agosto. Houve adaptações na localização da tribuna de imprensa, na área de estacionamento e o nível da arquibancada teve de subir um pouco, entre outras mudanças. As medidas atendem a exigências da Fifa. O São Paulo já comunicou ao Comitê da Copa de 2014 que "está fechando com os investidores para tocar as obras", segundo relato de Joana.



COPA DE 2010



O presidente da CBF deixou que Dunga respondesse às perguntas sobre a fase de preparação para o Mundial do ano que vem, na África do Sul. O técnico adiantou que a seleção deve ficar em locais mais reservados. Teixeira disse que já recebeu vários convites para abrigar a seleção pouco antes da Copa. Não revelou nenhum deles – Angola é a mais cotada – com uma explicação simples. "O Brasil ainda não se classificou para a Copa. Precisa de mais alguns pontos."



CALENDÁRIO



Ricardo Teixeira informou que retomou as discussões para a mudança do calendário do futebol brasileiro. Já conversou com uma das partes interessadas, a TV Globo, e com dirigentes de clubes. Reforçou ser favorável à adaptação do calendário brasileiro ao do futebol europeu e que o ideal seria que um eventual novo calendário fosse posto em prática já em 2010, para coincidir com o ciclo do Mundial. Teixeira, por mais de uma vez, reiterou que a decisão não depende apenas da CBF. "Não posso resolver o problema com uma canetada."



Ele disse ainda que a alteração envolve outra série de questões, como aspectos característicos de algumas regiões do País. "Toda vez que tem GP de F-1 em São Paulo não pode ter jogos; no carnaval do Rio também existe essa dificuldade, há datas festivas no Nordeste que podem ser obstáculos também." No caso da elaboração de um novo calendário, os Estaduais poderiam ser disputados após o Brasileiro.



"Se isso ocorrer, os times na Libertadores estariam também na Copa do Brasil, o que aumentaria bastante o interesse por esta competição. Seria mais valorizada", disse.



ERROS DE ARBITRAGEM



De acordo com Sérgio Correa, o nível de arbitragem do Brasil é bom em relação ao restante do mundo. "Dou nota 7,5." Ao lado de Teixeira, ele disse que a CBF investiu R$ 1 milhão no quadro nacional em 2008. E para 2009 o valor será maior.



Correa afirmou que o Brasil ainda levará de 3 a 5 anos para padronizar critérios de arbitragem. "Em 2012, podem me cobrar." O ex-árbitro citou vários cursos de aperfeiçoamento organizados pela CBF nos últimos meses para 400 árbitros e assistentes e citou alguns novatos talentosos no mercado: Rodrigo Nunes Sá, do Rio, Sandro Meira, de Brasília, e Marcia Caetano, de Rondônia.



Correa contou que recebe telefonemas de dirigentes revoltados com erros em jogos de seus clubes. Mas ressaltou que não muda o critério dos sorteios por causa das reclamações. "Em 2008, para 1.200 jogos, houve 33 protestos formais à CBF. Em 2009, até agora, em quase 500 jogos, recebemos apenas dez, com direito a DVD e tudo."



SEDE



As obras da nova sede da CBF começam em janeiro, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio, e tem prazo para ficar pronta até o final de 2012. O complexo numa área de 8.650 metros quadrados terá um museu, três campos de futebol e provavelmente um hotel em dois blocos com oito pavimentos cada – três para uso da seleção durante o Mundial de 2014.



A CBF pretende fazer parceria com uma rede de hotéis para a exploração do prédio. A intenção também é de que o hotel seja utilizado por clubes que vierem ao Rio para a disputa de competições nacionais.



O custo da nova sede não foi divulgado, mas, de acordo com Teixeira, será todo proveniente dos cofres da CBF.



A tendência é que a concentração de Teresópolis, na região serrana, fique mais ao dispor das seleções de base e dos times femininos da CBF.



JOGO BRASIL X ARGENTINA



Para o técnico Dunga, hoje em dia o jogador da seleção já se habituou a enfrentar todo tipo de dificuldade quando veste a camisa da equipe. "Se a gente joga no Brasil, recebe vaias, não é bem tratado. Então não tem com o que se preocupar lá fora."



Ele fez o comentário ao tratar de Brasil x Argentina, dia 6 de setembro, em Rosário. "Estamos calejados, jogar fora do país para nós agora é simples."



Dunga teve mais uma vez de falar sobre seu relacionamento conflituoso com a imprensa brasileira. Mesmo bem humorado, voltou a dar estocadas. "Se me fazem perguntas estúpidas, idiotas, como posso responder?" Depois, deu uma declaração que soou como uma ironia, sem um sentido muito claro. "Estamos cheios de criminalidade no Brasil porque não mataram os ladrões de galinha."



FERNANDO SARNEY



Ricardo Teixeira disse que não há nenhum constrangimento da entidade em manter Fernando Sarney como um dos dirigentes da entidade – ele é vice-presidente da CBF para a Região Norte. Apesar de o empresário ter sido indiciado pela Justiça do Maranhão em lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de quadrilha, Teixeira não vê motivos para alarde.



"Só considero alguém culpado após transitado em julgado (o processo)." O presidente da CBF disse que Sarney, eleito para o cargo em abril de 2006, tem mandato até o fim da Copa de 2014, não é remunerado pela CBF e só poderia ser afastado por assembleia geral, convocada por no mínimo 5 das 27 federações estaduais de futebol. "Não vejo nenhum constrangimento em tê-lo conosco."