Receita investiga funcionária do grupo Tania Bulhões

O dossiê de inteligência fiscal da Receita Federal sobre os negócios do Grupo Tania Bulhões aponta a funcionária Magali Bertuol como responsável por executar as supostas fraudes praticadas pela empresa. Os auditores afirmam que, além de negociar com os reais fornecedores, ela também era encarregada de efetuar as remessas de dinheiro ao empresário Márcio Campos Gonçalves, dono das empresas All Trade e Eurosete, citadas como intermediárias do esquema ilegal de importação de artigos de luxo.

Na semana passada, a Operação Porto Europa – missão integrada entre o Ministério Público Federal em São Paulo, Polícia Federal e Receita – vasculhou sete endereços em busca de informações sobre as fraudes. O apartamento de Magali, no Jaguaré, zona oeste da capital, foi um dos alvos das buscas. A blitz apreendeu papéis, computadores, uma Mercedes-Benz e R$ 1,7 milhão.

A logística verificada no caso Tania Bulhões, similar à que teria sido utilizada pela butique Daslu, contaria com duas exportadoras sediadas nos Estados Unidos (All Trade e Eurosete) e sete empresas (tradings) no Brasil. Segundo a Receita, o objetivo do esquema era dar "aparência de legalidade às faturas", fazendo com que o grupo conseguisse importar produtos subfaturados em 70%.

Os auditores atribuem a Magali o papel de coordenadora das simulações. A Receita diz ter provas de que era ela quem informava Gonçalves onde e para quem deveriam ser feitas as transferências de valores para o pagamento de fornecedores de Tania Bulhões. O dossiê da Receita reproduz cópia de e-mail trocado entre os dois em 2005. Analisando as mensagens, descobriu-se que a conta de e-mail usada por Magali era da Eurosete, o que comprovaria "a vinculação direta entre a exportadora e o real adquirente: o Grupo Tania Bulhões".

Com base em papéis apreendidos no escritório de Gonçalves pela Operação Dilúvio, em 2006, a Receita reconstituiu uma das negociações feitas entre os envolvidos e a fornecedora italiana Arti di Murano. Nas correspondências, dizem os auditores, "é possível perceber que Magali se apresenta como compradora". A fatura original, porém, foi emitida em nome da Eurosete, mas traz um manuscrito com a expressão "Magali". Entre 2005 e 2006, houve apenas um registro de importação de produtos da Arti di Murano pela Eurosete. Só que, pelos registros do Fisco, a única interessada nas mercadorias foi a trading Vila Porto.

Os produtos relacionados na fatura l falsa, emitida pela Eurosete, são os mesmos produtos registrados na fatura verdadeira, apreendida pela PF. Embora as descrições das mercadorias sejam as mesmas, os valores declarados na fatura entregue à Receita estavam subfaturados em 71%. Um castiçal preto, por exemplo, cujo preço original era de US$ 1.792, aparecia como tendo custado US$ 518.

A advogada Beatriz Catta Preta, defensora de Gonçalves, nega que as empresas de seu cliente pertençam ao Grupo Tania Bulhões. "O Márcio está estabelecido nos Estados Unidos há mais de 10 anos e jamais foi alvo da fiscalização americana". O Estado procurou Magali na casa dela, mas o porteiro disse que ela não estava. A reportagem deixou telefones de contato, mas ela não retornou.