Mercadante diz que há indícios concretos de ligação de Sarney com ato secreto. Bancada do PT insiste em afastamento

BRASÍLIA E RIO – O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), disse, em nota nesta sexta-feira, que a divulgação das gravações da Polícia Federal, nas quais o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), negocia com o filho Fernando Sarney emprego para o namorado da neta, é "grave, porque há indícios concretos da associação do peemedebista com atos secretos". A transcrição da escuta telefônica foi publicada pelo jornal "O Estado de S.Paulo" na quarta-feira. 

No comunicado, o líder do PT diz ainda que a bancada continua defendendo o afastamento temporário de Sarney do cargo e que não se opõe a uma reunião de emergência do Conselho de Ética, como defenderam na véspera os senadores Cristovam Buarque (PDT-DF) e Pedro Simon (PMDB-RS). 

Mesmo com novas declarações de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na quinta-feira, Sarney começa a perder parte dos aliados que sustentam sua permanência no cargo.

Sua maior preocupação é justamente o PT, onde mesmo aqueles que o defendiam, como Ideli Salvatti (SC), líder do governo no Congresso, já admitem que a situação se agravou e pode levar o partido a rever sua posição. Sem os 12 senadores do PT, Sarney teria uma margem frágil de 38 votos num possível processo por quebra de decoro parlamentar. Ou seja, menos da metade dos 81 senadores. 

Segundo disse um petista na quinta-feira, as gravações causaram forte reação na opinião pública, pois explicitam práticas patrimonialistas.

Nesta sexta, em entrevista à Rádio Bandeirantes, em São Paulo, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) reafirmou que Sarney deve pedir licença do cargo e tomar a iniciativa de comparecer ao Conselho de Ética, antes mesmo de ser convocado para se explicar.

PSDB vai entrar com representação no Conselho

O presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra (PE), confirmou nesta sexta-feira que as quatro denúncias apresentadas pelo senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), contra Sarney serão transformadas em representação no Conselho de Ética do Senado por quebra de decoro.

Segundo o líder tucano, as notícias que envolvem o presidente da Casa devem ser "imediatamente esclarecidas".

– Defendo que o Conselho de Ética funcione para salvar o Senado – disse Sérgio Guerra.

Guerra defendeu ainda a destituição do senador Paulo Duque (PMDB-RJ) da presidência do Conselho de Ética, por suas declarações polêmicas. Duque, semana passada, disse não se importar muito com a opinião pública porque ela é "muito volúvel":

– Aparentemente, o senador Paulo Duque não tem a menor condição de presidir o Conselho – disse.

O senador Arthur Virgílio disse que não vai se intimidar com ameaças de aliados de Sarney.

– Estou ponto para cumprir o meu papel – disse Virgílio.

O líder do DEM, José Agripino (RN), antecipou que defenderá na próxima reunião da bancada, em 4 de agosto, que o partido também assine representação contra Sarney, caso ele não dê explicações sobre sua ligação com os atos secretos:

– Diante dos fatos, não havendo reparo, vou defender que o DEM represente contra Sarney por quebra de decoro parlamentar.

O PSOL – autor da primeira representação – também informou nesta sexta que vai apresentar após o recesso, no dia 4 de agosto, uma nova ação contra o presidente do Senado, apresentando todos as recentes denúncias envolvendo a atual gestão. O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) informou que o partido também irá entrar com pedido de arguição de suspeição para o afastamento do presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), no julgamento das representações. O deputado justifica que Duque se manifestou "desairosamente" em relação as denúncias contra Sarney.

– A chantagem que alguns do PMDB andam fazendo, ameaçando com um festival de representações, não nos afeta e só revela o caráter rebaixado dos que mandam nesse partido que só tem projeto de poder. Só denunciar por conveniência, com zelo ético de ocasião, é quebra de decoro também!" – afirma Alencar.

O deputado também critica a postura de Lula:

– Mesmo os admiradores de Lula criticam a postura do presidente. "Parece que ele está achando que a popularidade lhe permite fazer qualquer coisa" – é a síntese do que temos ouvido.

Até no PMDB a situação de Sarney se complica

Em entrevista à rádio CBN, nesta sexta, o ex-presidente do Senado Garibaldi Alves (PMDB-RN) disse acreditar que "uma maioria vê como solução a saída do senador José Sarney" do cargo de presidente. Perguntado se a população espera a saída de Sarney do cargo, respondeu:

– Acredito que a grande maioria veja como solução a saída do presidente Sarney, apesar de se saber que não seria ainda a solução total para o problema, que é mais abrangente e mais grave.

Tropa de Renan ameaça partidos

Mas o grupo peemedebista liderado por Renan Calheiros (AL) reagiu energicamente nesta sexta à movimentação do PT.

O Senado ainda nem sabe direito o que é ato secreto. Mas, pelo jeito, Mercadante gostaria de ser filho de cigano para prever o futuro. Aí, solta uma nota para tentar adivinhar o que vai acontecer. A cada fumaça, tem uma nota dele. Isso é insegurança total – criticou o senador Wellington Salgado (PMDB-MG).

Em tom de ameaça, Wellington Salgado deixou claro que, se o PT retirar seu apoio a Sarney, terá de arcar com as consequências:

– Se o PT acha bom trabalhar para que Marconi Perillo (PSDB-GO) assuma a presidência, é um problema do PT. Até porque, tem problema pior do que o Arthur Virgílio, que é réu confesso? Ele tem a cara de pau de apresentar uma nova representação! Ele já está no corredor da morte, aguardando a senha. Cria fato novo todo dia para desviar o foco dele – disse, referindo-se ao fato de Virgílio ter admitido que empregou um funcionário fantasma.

Para Salgado, a nomeação do namorado da neta de Sarney para um cargo no Senado não é motivo para a abertura de uma representação contra o presidente da Casa no Conselho:

– Não vejo razão para representação por causa da nomeação desse playboy. Há um ano esse rapaz não é mais namorado da neta de Sarney. Se houvesse essa ligação, ele teria perdido o cargo, o que não aconteceu.