Lanchas, imóveis e carros de luxo: exploradores de jogos de azar no Vale do Sinos na mira da polícia


Contraventores teriam utilizado empresas de diversos ramos e os nomes de terceiros



Radar

Uma jogadora contumaz, assolada pelo vício e por perdas financeiras colocou a Polícia Civil no rastro de uma organização criminosa que enriqueceu lavando dinheiro oriundo da exploração de jogos de azar no Vale do Sinos.

A Operação Octopus, deflagrada na tarde desta segunda-feira (12), mira em bens de cerca de R$ 33,3 milhões de 55 investigados entre pessoas físicas e jurídicas. A Justiça determinou o sequestro de mais de 50 veículos, entre eles duas lanchas e dois jetskis, e de mais de 30 imóveis, além do bloqueio parcial das contas bancárias de 29 pessoas.

Os valores têm como base avaliações preliminares. Também há expectativa da polícia de bloqueio de cerca de R$ 27 milhões em contas bancárias dos suspeitos.

Durante nove meses, a Delegacia de Repressão ao Crime de Lavagem de Dinheiro do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos monitorou as atividades do grupo, cujos membros tiveram quebrados os sigilos bancário, fiscal e financeiro.

A investigação apurou uma lista de pessoas usadas como laranja pela organização e também de empresas que serviram para lavagem de valores.

São cumpridos nesta segunda-feira 30 mandados de busca e apreensão em residências, comércios e empresas de Porto Alegre, Capão da Canoa, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Portão e Xangri-lá. O

nome da operação é uma referência aos tentáculos dos líderes da organização em vários municípios.

A investigação começou quando uma jogadora procurou o Ministério Público no ano passado, depois de perder em torno de R$ 100 mil frequentando bingos e jogando em máquinas caça-níqueis.

A jogadora apresentou comprovantes de cartão de crédito que indicavam que máquinas usadas nas casas de jogos de azar pertenciam, na verdade, a outras empresas de ramos diversos, como restaurantes, lancherias, loja de comércio de mármore e produtoras de eventos, entre outras.

Conforme o delegado Filipe Bringhenti, que conduziu o trabalho, essa é uma prática comum na lavagem de dinheiro: máquinas de cartão são contratadas em nome de determinada empresa mas, em vez de serem empregadas para vendas na atividade declarada, são usadas nas casas de jogos de azar.

Nesses locais, jogadores compram créditos, sendo que o valor faturado por meio das máquinas é diretamente revertido para a conta da empresa supostamente lícita. Isso permite que o dinheiro sujo seja "branqueado".

O cuidado para tentar fazer os negócios parecerem lícitos era tanto que os envolvidos tinham o controle do gasto por empresa. Os gerentes nas casas de jogos tinham de ir trocando de máquina cada vez que uma delas atingisse um limite determinado que fosse próximo da realidade de faturamento de cada tipo de negócio.

Por exemplo: se estivesse sendo usada a máquina com CNPJ de uma farmácia, o limite de gasto por dia era compatível com o daquele tipo de estabelecimento a fim de não levantar suspeitas caso alguma autoridade fosse verificar o faturamento. Quando atingisse aquele valor, a casa de azar passava a usar a máquina de cartão de crédito de outra empresa do esquema e assim por diante.

Entre as 22 empresas investigadas, algumas eram só de fachada. Chamou a atenção da polícia o caso de três empresas que tinham o mesmo endereço e três diferentes donos.

Ao verificar o local, os policiais descobriram se tratar de uma sala comercial vazia, sem nenhuma atividade, sendo usada, exclusivamente, para esquentar dinheiro do jogo de azar.

Um dos líderes é proprietário de bingo em Novo Hamburgo

Um dos alvos da Octopus é um laranja que além de ser titular de uma das empresas do esquema também era responsável por movimentar uma das principais contas bancárias da organização criminosa.

Ao rastrear quem dava ordens a esse homem — que tem uma vida simples se levado em conta o patrimônio que acumula em seu nome — a polícia identificou um dos líderes do esquema, dono de um bingo no Vale do Sinos e titular de patrimônio de alto valor.

Durante a investigação, policiais monitoraram a rotina do bingo, que funciona no centro de Novo Hamburgo. O entra-e-sai de jogadores e funcionários é permanente. Cerca de uma centena de clientes passa pelo local diariamente.

Para obter as medidas judiciais de bloqueio e sequestro de bens, a polícia teve de demonstrar que os suspeitos estão praticando há anos atos de lavagem de dinheiro, adquirindo carros, embarcações e imóveis de luxo e os registrando em nome de parentes ou de outras pessoas de confiança.

A polícia acredita que, com a deflagração da operação, informações sobre mais bens da organização possam surgir.

A Capitania dos Portos foi notificada para sequestrar qualquer embarcação que exista em nome dos 55 investigados.

A polícia já obteve autorização judicial para usar dois carros sequestrados: um Corolla e uma caminhonete S-10.

O trabalho da Octopus foi feito em parceria com a Promotoria de Combate aos Crimes de Lavagem de Dinheiro e Organização Criminosa do MP.

Conforme a polícia, o fato de ser baixa a sanção a quem explora o jogo de azar fez com que os investigados mantivessem as atividades ilícitas por tanto tempo, apesar de já terem respondido a procedimentos policiais por envolvimento com exploração de jogo de azar.

— As inúmeras investigações no país sobre jogos ilícitos trazem histórias desenhadas com fatos trágicos, como homicídios, tráfico e corrupção. Assim, o que deve ficar claro é que não é a contravenção do jogo o centro das investigações apenas, mas os crimes graves conexos e os decorrentes. Organizações criminosas e a lavagem de dinheiro começam a ser descortinadas à medida que novos e modernos mecanismos legislativos e de investigação permitem às polícias maior qualificação na repressão. Portanto, a tendência é o aumento da apuração destas modalidades criminosas — destacou o delegado Cristiano Reschke, diretor do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos.

Parao delegado, a discussão sobre a liberação do jogo não pode ser rasa e ficar apenas no cunho arrecadatório:

— A população tem que ser esclarecida acerca de todo o contexto complexo que envolve a questão e o que é financiado com os lucros do crime. Como Polícia Civil continuaremos firmemente enfrentando as ilicitudes, nos termos da lei.

A polícia não divulgou nomes de investigados.


Gauchazh
https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2018/03/operacao-mira-em-exploradores-de-jogos-de-azar-que-tem-lanchas-imoveis-e-carros-de-luxo-de-mais-de-r-30-milhoes-cjeohqpwc029r01r4s1848cl1.html